Mil oitocentos anos no Báltico — de Køpmannæhafn medieval à monarquia mais antiga da Europa.
A história documentada de Copenhague começa em 1167, quando o bispo Absalon — conselheiro do rei Valdemar I — construiu um castelo no ilhéu de Slotsholmen para defender o pequeno povoado de pescadores chamado Hafn ("porto") contra piratas wendos do Báltico oriental. O nome evoluiu para Køpmannæhafn ("porto dos mercadores"), corrompido depois em Copenhagen / København. A cidade cresceu como entreposto comercial báltico, parte da Liga Hanseática indiretamente, controlando o tráfego naval no estreito de Øresund — onde a Dinamarca cobrava taxa de passagem (Sundtolden) de todo navio que cruzasse, fonte fiscal central durante quase 400 anos (1429-1857).
Em 1416, Erik da Pomerânia transferiu a sede da monarquia para Copenhague (anteriormente em Roskilde), e em 1443 a cidade foi formalmente declarada capital do reino. A dinastia dos Oldemburgo assumiu o trono em 1448 e governa até hoje — mais de 575 anos consecutivos, somando-se à continuidade dinástica desde Gorm o Velho (c. 935 d.C.) que faz da monarquia dinamarquesa a mais antiga em atividade na Europa. Em 1479 foi fundada a Universidade de Copenhague — uma das mais antigas do norte europeu.
Christian IV (1577-1648) — o "rei construtor", reinou por 60 anos, o mais longo da história dinamarquesa — definiu a fisionomia que vemos hoje. Sob ele foram erguidos o palácio de Rosenborg (1606-34, residência real renascentista hoje guardando as joias da coroa), Børsen (1619-40, antiga Bolsa de Valores com o icônico spire de quatro dragões entrelaçados), o bairro inteiramente novo de Christianshavn (1618, modelado em Amsterdã com canais e fachadas verticais), a vila operária Nyboder (1631, casas amarelas em fileiras para marinheiros da marinha real, ainda habitadas hoje), e o Round Tower / Rundetårn (1637-42, observatório astronômico com rampa em espiral em vez de escadas — projetado assim para que Tycho Brahe e seus sucessores subissem com instrumentos pesados de bronze). Christian IV também perdeu guerras desastrosas contra a Suécia.
O século XVII foi catastrófico geopoliticamente. A Guerra dos Trinta Anos arruinou as finanças. As guerras com a Suécia em 1658-60 custaram à Dinamarca todas as províncias do leste do Øresund — Skåne, Halland, Blekinge — incorporadas à Suécia para sempre, e que ainda hoje são suecas (Malmö, hoje a 35 min de trem por ponte, foi dinamarquesa até 1658). Em 1660 a monarquia se tornou absolutista — concentração de poder no rei, com toda a estrutura feudal medieval substituída por uma burocracia centralizada. Em 1711-12, uma epidemia de peste matou 23 mil habitantes (cerca de um terço da cidade). Em 1728, o grande incêndio destruiu 28% dos edifícios. Em 1795, outro incêndio destruiu mais 1.000 prédios. A cidade renasceu três vezes em 70 anos.
O século XIX trouxe ao mesmo tempo a era dourada cultural (Guldalder, 1800-1850) e a humilhação militar. Em 2 de abril de 1801, a Royal Navy britânica, sob Nelson, bombardeou e destruiu boa parte da frota dinamarquesa (Batalha de Copenhague). Em setembro de 1807, a Royal Navy bombardeou a cidade por 3 dias para forçar a entrega do que sobrava da frota, evitando que Napoleão a tomasse — 2.000 prédios destruídos, 195 civis mortos. Os ingleses levaram embora 92 navios da marinha dinamarquesa, esvaziando a frota. Em 1814, a Dinamarca perdeu a Noruega para a Suécia (Tratado de Kiel). Em 1864, perdeu Schleswig-Holstein para a Prússia. O reino encolheu drasticamente.
Paradoxalmente, foi este o período cultural mais denso. Hans Christian Andersen (1805-75) escreveu "A Pequena Sereia" (1837), "O Patinho Feio" (1843), "A Roupa Nova do Imperador" (1837), "A Princesa e a Ervilha" (1835) — fundando a literatura infantil moderna mundial. Søren Kierkegaard (1813-55) escreveu Ou-Ou (1843), Temor e Tremor (1843), O Conceito de Angústia (1844), Doença Para a Morte (1849) — fundando o existencialismo. Bertel Thorvaldsen (1770-1844) tornou-se o maior escultor neoclássico europeu da época, com o museu Thorvaldsen aberto em Copenhague em 1848. Em 1843, Georg Carstensen criou o Tivoli — parque de diversões inspirado em Vauxhall Gardens de Londres, que abriu suas portas em 15 de agosto e funciona ininterruptamente até hoje (Walt Disney visitou várias vezes e admitiu inspiração direta para Disneyland em 1955).
A virada do século XX viu Niels Bohr ganhar o Nobel de Física em 1922 e fundar o Instituto Bohr em 1921 (epicentro da física quântica). Carl Nielsen consolidou-se como compositor sinfônico maior. A população explodiu de 130 mil em 1850 para 600 mil em 1920 com industrialização e migração rural-urbana.
A Segunda Guerra Mundial definiu o caráter moral moderno. Em 9 de abril de 1940, os alemães invadiram a Dinamarca numa operação relâmpago de 6 horas com perdas mínimas. O rei Christian X recusou exilar-se, ficando em Copenhague — diariamente cavalgava sozinho pela cidade como ato simbólico de resistência passiva (a história de que teria usado estrela amarela em solidariedade aos judeus é apócrifa, mas tornou-se lenda cultural cristalizada). Em outubro de 1943, quando os nazis planejaram deportar os 7.800 judeus dinamarqueses para campos de extermínio, a resistência dinamarquesa — coordenada com pescadores comuns que conheciam o estreito de Øresund — conseguiu transportar 7.220 deles para a Suécia neutra em barcos de pesca em poucos dias. Apenas 580 foram capturados e deportados, a maioria sobreviveu em Theresienstadt graças à pressão diplomática dinamarquesa que conseguiu visitas da Cruz Vermelha. É uma das únicas operações de salvamento em massa bem-sucedidas do Holocausto.
Após a libertação em maio de 1945, a Dinamarca foi cofundadora da OTAN (1949), aderiu à CEE/UE em 1973 (mesma data que Reino Unido e Irlanda), mas rejeitou o Euro em referendo de 2000 (53,2% contra). A coroa dinamarquesa segue pareada ao Euro num corredor estreito (banda ERM II, ~7,46 DKK/EUR). Em 2001, entrou no espaço Schengen.
O período moderno-contemporâneo reescreveu Copenhague em três frentes paralelas. (1) O estado de bem-estar nórdico — implantado entre 1950 e 1970 pelos sociais-democratas — criou o sistema fiscal-redistributivo mais profundo do mundo (alíquotas marginais acima de 55%) com retorno em saúde universal, educação superior gratuita, licença parental de 52 semanas. (2) A virada ciclística começou nos anos 1970 em resposta à crise do petróleo de 1973: a cidade decidiu sistemicamente substituir vias para carros por ciclofaixas segregadas. Hoje 62% da população pedala diariamente versus 9% que dirige. (3) A revolução gastronômica de Noma + new nordic cuisine entre 2004 e 2024 reescreveu o que alta cozinha podia ser, com efeito global multiplicador.
Em janeiro de 2024, a rainha Margrethe II abdicou voluntariamente após 52 anos no trono — primeira abdicação dinamarquesa em 900 anos. Frederik X (n. 1968) assumiu, casado com a princesa Mary Donaldson, australiana de Hobart que conheceu em pub durante os Jogos Olímpicos de Sydney 2000. A continuidade dinástica passou marco dos 1.090 anos. Copenhague em 2026 é capital de um país de 5,9 milhões de habitantes — pequeno em escala, gigante em PIB per capita (USD 68.000) e índices de qualidade de vida, e capital simbólica do que sociedade contemporânea pode parecer quando trata bem-estar como infraestrutura.