Splitwise é o padrão global mas trava no multi-moeda do free tier. Tricount é europeu e ganha em UX simples. Settle Up tem o melhor algoritmo de acerto. Google Sheets vence quando o grupo tem um nerd. Notion é onde projetos morrem. Fizemos a conta com seis amigos em Tóquio, ¥ + US$ + R$, e tem ferramenta certa para cada perfil de grupo.
13 min de leitura
O problema que ninguém quer admitir
Viagem em grupo morre por três motivos: alguém ronca, alguém atrasa, e ninguém quer falar de dinheiro. O terceiro mata mais amizade que os dois primeiros somados.
Você sai do Brasil com seis amigos para passar dez dias em Tóquio. Alguém pagou o táxi do aeroporto em iene. Outro botou o Airbnb no cartão em dólar. Um terceiro pagou jantar em yen com 5% de IOF. No quarto dia, alguém pede ramen e dois saem antes. No sexto, dividem um jantar de R$ 1.800 onde duas pessoas só comeram entrada. No nono, ninguém lembra mais quem pagou o quê.
O app errado, ou pior, nenhum app, transforma a volta para casa em planilha de Excel com tom passivo-agressivo no grupo do WhatsApp. Já vi rolo de uma noite em Lisboa quebrar amizade de quinze anos.
Esse texto é o teste real. Splitwise, Tricount, Settle Up, Google Sheets e Notion, com um grupo de seis pessoas, três moedas (¥, US$, R$), dez dias de despesas misturadas, e a conciliação final que sempre dói.
Para o lado financeiro do câmbio em si, vale ler Quanto dinheiro físico levar por país antes de fechar mala.
O que um app de divisão precisa fazer (de verdade)
Quase todo mundo testa um app pelo que ele faz bonito. Errado. Avalie pelo que ele faz quando aperta:
- Multi-moeda real-time: viagem internacional tem ¥, US$, EUR, R$ no mesmo dia. O app converte com câmbio do dia da despesa, não do dia do acerto?
- Split por shares ou %: jantar onde dois pediram só entrada precisa ser dividido por shares (peso) ou %, não em partes iguais.
- Exclusão por participante: alguém perdeu o passeio? O app deixa marcar "essa despesa não inclui Fulano" em 2 toques?
- Algoritmo de acerto: ao final, o app calcula o mínimo de transferências entre as pessoas, ou pede que todos paguem todos?
- Exportação: você consegue baixar CSV ou PDF para o grupo conferir antes de transferir?
- Integração banco/Pix/Wise: o app tem botão para gerar Pix ou link Wise direto?
Splitwise acerta 4 dos 6, mas o multi-moeda real-time virou pago. Tricount acerta 5 dos 6, falhando na integração banco. Settle Up acerta os 6, mas exige curva de aprendizado.
Splitwise: o padrão, mas mais frágil em 2026
Splitwise é o app que todo mundo já tem. Desde 2011, dominou o nicho. Tem versão web, iOS, Android, e foi o primeiro a popularizar o conceito de "balance" (saldo) em vez de transações individuais.
Como funciona: você cria um grupo, adiciona pessoas (por e-mail ou link), e cada despesa entra com quem pagou e como dividir. O app mantém o saldo de cada um e, ao final, sugere quem deve pagar quem.
O que mudou desde 2024: o free tier ficou apertado. Hoje você tem limite de 3 despesas/dia no plano gratuito. Em viagem real, isso estoura no primeiro dia de Tóquio (café da manhã, almoço, jantar, táxi, ingresso — 5 despesas só em 12 horas).
Splitwise Pro: US$ 4/mês (~R$ 22) ou US$ 40/ano. Libera despesas ilimitadas, conversão automática de moeda em tempo real, gráficos, OCR de recibo e backup. Em viagem de 10 dias, vale a pena se você é o tesoureiro do grupo.
Onde vence: grupo misto onde algumas pessoas nunca usaram app de despesa. UX é a mais limpa do mercado, onboarding é em 30 segundos.
Onde perde: grupo grande (8+ pessoas) em que ninguém quer pagar Pro. O free tier vai travar, alguém vai esquecer de lançar, e o saldo final fica errado.
Tricount: o belga que ninguém viu chegar
Tricount nasceu na Bélgica em 2010, foi comprado pela Bunq em 2022 e ficou 100% gratuito desde então. É o app que mais cresceu na Europa para dividir despesa de viagem.
Como funciona: cria-se um "tricount" (grupo), define moeda principal, e cada despesa entra com quem pagou, quem participou e em qual moeda. O app converte tudo para a moeda principal usando câmbio do dia.
Diferenciais:
- Multi-moeda real-time incluso no free (sem cobrar).
- Despesas ilimitadas.
- Sem login obrigatório (você pode usar via link compartilhado, ótimo para o amigo offline).
- Exporta CSV e PDF.
- Suporta split por shares, % ou valor absoluto por pessoa.
Onde perde:
- Algoritmo de acerto sugere mais transferências do que o necessário em grupos grandes. Em 6 pessoas, ele às vezes manda A pagar B e B pagar C em vez de A pagar C direto.
- UX é menos polida que Splitwise. Botões pequenos, navegação demora mais.
- Não tem integração com Wise/Pix para pagar direto.
Onde vence: grupo de europeus ou viajantes que cruzam várias moedas. Sem cobrança, sem limite, sem letra miúda.
Em maio/26, é o app que mais recomendamos para grupo de brasileiros viajando para destinos com múltiplas moedas (Tóquio + Coreia, ou Europa com Suíça e Reino Unido).
Settle Up: o algoritmo certo
Settle Up é tcheco, lançado em 2010, e tem o melhor algoritmo de acerto do mercado. É o app que matemático recomenda.
Como funciona: igual aos outros — grupo, despesas, divisão. A diferença está no algoritmo de simplificação de dívidas: ao final, ele calcula o número mínimo de transferências para zerar todos os saldos. Em 6 pessoas, isso pode significar 3 transferências em vez de 9.
Free tier: ilimitado, com anúncios. Premium: US$ 15/ano (~R$ 80), tira ads e libera backup automático + exportação avançada.
Diferenciais:
- Algoritmo de acerto é o melhor que existe (matematicamente prova-se o mínimo).
- Multi-moeda real-time incluso no free.
- Suporta comprovante fotográfico anexado a cada despesa (free).
- Modo offline com sync depois.
Onde perde:
- UX é mais "engenheiro tcheco" que "design californiano". Tela mais densa, menos cores.
- Curva de aprendizado é maior. Amigo que nunca usou demora 5 minutos para entender.
- Não tem versão web tão completa quanto Splitwise.
Onde vence: grupo grande (8+ pessoas) ou grupo onde uma pessoa muito específica é credor de todos. O algoritmo realmente reduz transferências em 30-50% nos cenários reais.
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Google Sheets: a opção do nerd
Aqui é onde a coisa fica divisiva. Algum grupo tem aquele amigo que abre o laptop no avião e monta uma planilha em 20 minutos. Se você é esse amigo, ou tem um, Google Sheets vence todos.
Por quê:
- Zero limite de despesas, moedas, pessoas.
- Câmbio real-time via
=GOOGLEFINANCE("CURRENCY:JPYBRL")direto na célula. - Personalização total: tags por categoria, gráficos, comentários por linha, histórico de edição.
- Compartilhamento granular: cada pessoa edita a sua linha.
- Conciliação visual: dá para ver tudo de uma vez.
Template básico que funciona (colunas):
| Data | Quem pagou | Descrição | Moeda original | Valor original | Câmbio | Valor em BRL | Quem participou | Split |
|---|
Embaixo, uma tabela dinâmica calcula o saldo de cada um. E uma segunda planilha sugere as transferências finais.
Onde perde: grupo onde ninguém abre a planilha. É o cemitério dos projetos compartilhados. Se o tesoureiro não for disciplinado, vira inferno na volta.
Onde vence: grupo de tech, finanças, ou pessoas que já viajaram juntas várias vezes e têm uma cultura de planilha. Vence também em viagens longas (slow travel) onde despesas se acumulam por 30+ dias e nenhum app aguenta.
Notion: cuidado
Notion virou meme de "vou organizar minha vida e nunca abro". Para divisão de despesa, é o pior dos cinco testados.
O que funciona: databases bonitas, views por pessoa, integração com outras páginas do projeto da viagem.
O que não funciona:
- Sem cálculo automático de câmbio.
- Sem algoritmo de acerto.
- Soma manual.
- Mobile ruim para entrada rápida de despesa no balcão de um restaurante em Tóquio às 23h.
Use só se: o grupo já vive dentro do Notion para todo o planejamento da viagem (itinerário, reservas, contatos), e o tesoureiro é tarimbado.
O teste real: 6 pessoas, 10 dias em Tóquio
Grupo: 6 brasileiros, 28-42 anos, mistos entre tech e não-tech. Período: outubro/25. Total gasto: ~R$ 92.300 (¥1.840.000 + alguns US$ 1.200 em ingressos e R$ 4.100 em táxis e seguros pagos no Brasil).
Setup: tesoureira (a Marina, dev sênior, organizada). Decisão pré-viagem: testar Splitwise Pro + planilha Google Sheets em paralelo.
Despesas mais comuns:
- Airbnb e hotéis: pagos no cartão de um, em US$ e ¥. 30% do total.
- Restaurantes: pagos no balcão, em ¥. 40% do total.
- Transporte (Suica, taxis): misto, alguns no cartão de um, alguns em dinheiro. 12%.
- Atrações (Teamlab, sumô, Disney): comprados online em US$ ou no balcão em ¥. 14%.
- Compras divididas (presentes para filhos da galera): 4%.
Conflitos que apareceram:
Conflito 1 — Táxi às 3h da manhã em Shibuya. Quatro pessoas pegaram o táxi, duas voltaram a pé porque queriam comer ramen. Quem paga? Decisão do grupo: dividir só entre os quatro do táxi.
- Como o app resolveu: Splitwise — em 5 toques, marca "split entre 4 selecionados". Tricount — em 6 toques, mas mesma lógica. Sheets — Marina ajustou na hora.
Conflito 2 — Jantar de R$ 1.800 onde 2 pessoas só comeram entrada. Restaurante kaiseki, 4 pessoas pediram menu completo (¥18.000 cada), 2 pediram entrada e saquê (¥6.000 cada). Total: ¥84.000.
- Como dividir: por share (peso). 4 pessoas com peso 3, 2 pessoas com peso 1. Total de pesos: 14. Cada peso = ¥6.000. Os "menu completo" pagam ¥18.000 cada, os "só entrada" pagam ¥6.000 cada. Bate.
- Splitwise: aceitou shares (3/3/3/3/1/1) em 4 toques.
- Tricount: aceitou shares também, UX um pouco mais arrastada.
- Sheets: trivial.
Conflito 3 — Ingressos do Teamlab comprados online por uma pessoa em US$. US$ 38 x 6 = US$ 228. Câmbio do dia: 5,12. Em BRL: R$ 1.167.
- Splitwise Pro: converteu auto. Marina pagou no Wise, recebeu de 5 pessoas via Pix no Brasil. Splitwise mostrou em R$ direto.
- Sheets:
=GOOGLEFINANCE("CURRENCY:USDBRL", "price", DATE(2025,10,8))puxou cotação do dia. Bate na vírgula.
Conflito 4 — Compra coletiva no Don Quijote, 3 pessoas no caixa, ¥48.000 pago no cartão de uma só. Quem comprou o quê? Solução: depois do caixa, os três se reuniram no hotel, fotografaram os recibos, e a pessoa que pagou lançou cada item para o destinatário.
- Splitwise: lançou 3 despesas separadas. Free tier teria travado (limite de 3/dia).
- Tricount: mesma coisa, sem limite.
- Sheets: linha por item, ótimo para histórico futuro.
Conciliação final (10 dias depois, voo de volta):
- Splitwise Pro: gerou o quadro de 5 transferências mínimas. Tempo: 3 segundos.
- Tricount: gerou 7 transferências (algoritmo menos otimizado). Tempo: 3 segundos.
- Settle Up (teste paralelo via export): também 5 transferências, idêntico ao Splitwise.
- Sheets: Marina rodou uma fórmula custom de simplificação, deu 5 também, mas levou 20 minutos para ela montar.
Veredito do grupo de 6: Splitwise Pro venceu. Custou US$ 4 (Marina assinou). Tricount ficou em segundo, ótimo backup gratuito. Sheets foi o "auditor" — todos confiaram mais quando viram que o Splitwise batia com a planilha.
A regra de ouro: combinar antes do voo
Nenhum app salva grupo que não conversa. Antes do voo, faça uma call de 30 minutos com o grupo e defina:
- Quem é o tesoureiro. Uma pessoa, não duas. Ela é quem lança no app oficial.
- Qual app oficial. Splitwise, Tricount ou Sheets. Um só. Sem "ah, eu uso o outro".
- O que entra no rateio: hotel, transporte coletivo, restaurantes a 4+. O que não entra: lembranças pessoais, taxi individual, gastos de saúde individuais.
- Moeda de fechamento. Real, dólar ou euro? Define para o app converter.
- Quem paga o quê preferencialmente: ex. "fulano sempre paga restaurante porque tem cartão sem IOF" e os outros reembolsam. Reduz fricção no balcão.
- Acerto: até quando depois da viagem. Padrão: até 7 dias após o voo de volta. Depois disso, vira dívida ruim.
Coloca tudo isso num doc, manda no grupo, todo mundo dá "ok". Pronto. A viagem flui.
Tabela rápida — qual app para qual grupo
| Cenário | App recomendado | Por quê |
|---|---|---|
| Grupo de 3-4 amigos, 1 moeda | Splitwise free | UX limpa, free tier resolve |
| Grupo de 3-4 amigos, multi-moeda, viagem curta | Tricount | Free com multi-moeda nativo |
| Grupo de 5-7 amigos, multi-moeda, viagem longa | Splitwise Pro | US$ 4/mês vale a paz |
| Grupo de 8+ pessoas, vários credores | Settle Up | Algoritmo de acerto é o melhor |
| Grupo tech, tesoureiro nerd, viagem 30+ dias | Google Sheets | Sem limite, customização total |
| Grupo Notion-addict, viagem com itinerário detalhado | Notion + Sheets embed | Notion para o resto, Sheets para o dinheiro |
| Casal viajando | Não use app | Pix direto na volta resolve |
Checklist final: monte seu fluxo em 5 minutos
- Decide o app oficial e cria o grupo antes do voo.
- Adiciona todos por e-mail ou link, confere que cada um abriu.
- Define moeda principal (R$ se todos brasileiros).
- Documenta no grupo do WhatsApp: tesoureiro, app, o que entra, prazo de acerto.
- No primeiro dia, lança 2 despesas falsas para todos verem como aparece. Apaga depois.
- Combina ritmo: lançar despesa no mesmo dia, não acumular.
- Na volta, 24h de janela para conferir antes do acerto.
- Acerto via Pix (brasileiros), Wise (mistos) ou Revolut (europeus).
Viagem em grupo é mais barata, mais divertida e mais memorável que viagem solo. Mas só se o dinheiro for invisível durante e transparente depois. App certo é a ferramenta. Combinado prévio é o método.
Pontos-chave
**Splitwise**: padrão global, melhor UX para iniciante. Free tier limita 3 despesas/dia desde 2024 e cobra US$ 4/mês para multi-moeda automática. Ainda vence quando o grupo é misto (uns com app, uns sem).
**Tricount**: 100% free, multi-moeda nativo, sem limite de despesas. UX europeia simples, mas exportação ruim e algoritmo de acerto menos limpo que Settle Up.
**Settle Up**: o melhor algoritmo matemático para minimizar transferências. Free com anúncios, premium US$ 15/ano. Curva de aprendizado maior, vence em grupos grandes (8+).
Perguntas frequentes
Tricount vence no custo-benefício em 2026: multi-moeda nativo no free, despesas ilimitadas, sem letra miúda. Splitwise vence em UX e quando o grupo é misto (pessoas que nunca usaram app), mas exige US$ 4/mês de Pro para multi-moeda automática. Se o grupo é todo brasileiro com câmbio simples, Tricount. Se metade é estrangeira ou ninguém quer ler manual, Splitwise.
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Sobre o autor
Curadoria Voyspark
2 anos no editorial Voyspark
Time editorial da Voyspark — escritores, repórteres, fotógrafos e fixers em Lisboa, Tóquio, Nova York, Cidade do México e Marrakech. Coletivo. Sem voz corporativa. Cada peça com checagem cruzada por um editor regional e um chef ou curador local.
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