Doha não pede para ser amada — pede para ser compreendida. Em 50 anos passou de aldeia de pescadores e mergulhadores de pérolas a hub aéreo mais premiado do planeta, com a Qatar Airways a colecionar 5 estrelas Skytrax sete vezes (única companhia do mundo a atingir esse número). O Hamad International, aberto em 2014 com desenho de Hellmuth/Obata/Kassabaum, opera 200 destinos em seis continentes e injecta no pequeno Estado do tamanho do Alentejo um fluxo permanente de passageiros em conexão — muitos nunca saem do duty-free, mas os que saem encontram, em 25 minutos de carro, uma cidade que decidiu não esperar pelo turismo: construiu primeiro, abriu a porta depois.
O Museum of Islamic Art (MIA), inaugurado em 2008, é a razão cultural número um para sair do aeroporto. Projectado por I.M. Pei aos 91 anos — última obra completa antes de morrer — o edifício ergue-se sobre uma ilha artificial na Corniche, com volumes calcários geometrizados desenhados após uma viagem ao Egipto onde procurou a essência da arquitectura islâmica nas mesquitas de Ibn Tulun. A colecção abrange 1.400 anos e três continentes — caligrafia, cerâmica, metalurgia, vidros, manuscritos, tapeçaria iraniana, indiana, otomana, mameluca, andaluza — é a maior do mundo no recorte e foi montada com orçamento ilimitado pela Qatar Museums sob direcção da Sheikha Al Mayassa. Não há equivalente em Londres, Paris ou Nova Iorque. A vista do átrio para o skyline de West Bay ao pôr-do-sol é, sozinha, justificação de stopover.
O Souq Waqif é a alma comerciante restaurada. O mercado tem origem real nos anos 1800, quando os beduínos do interior traziam camelos e mercadorias para trocar pelo peixe dos pescadores costeiros — "waqif" significa literalmente "em pé" porque os comerciantes ficavam de pé sob o sol para vender. Em 2003-2008 o emir Hamad bin Khalifa ordenou a demolição das estruturas pós-1950 (betão e néon) e a reconstrução fiel ao traçado original em madeira, gesso e palha, com base em fotografias dos anos 1950. O resultado é uma das melhores restaurações de mercado tradicional do Médio Oriente: especiarias, perfumes oud, falcões de caça (mercado dedicado), tecidos, tapetes, cafés iemenitas, restaurantes libaneses, sírios, persas, cataris (Al Aker para machbous de borrego). Visitar à noite, com o calor a ceder e o cheiro de jasmim, é a vivência mais densa que Doha oferece.
O skyline de West Bay e a ilha artificial The Pearl-Qatar mostram a Doha que decidiu anunciar-se ao mundo: 25 torres de aço e vidro entre 200-300m de altura projectadas por Norman Foster (Tornado Tower), Murphy/Jahn, Atkins, Pelli — desenhadas para serem vistas da Corniche ao pôr-do-sol, quando o reflexo no Khor (a enseada) faz da cidade um cartaz auto-iluminado. A Pearl-Qatar (4 milhões de m², aberta em fases desde 2010) é um arquipélago artificial em forma de pérolas ligadas, com Porto Arabia (mediterrânico), Qanat Quartier (Veneza tropical), Medina Centrale — apartamentos de luxo, marinas de iates e a maior concentração de restaurantes de chef internacionais do Catar (Nobu, La Petite Maison, Marsa Malaz Kempinski). É o oposto do Souq Waqif e por isso o complemento: Doha consegue oferecer, a 15 minutos de carro, dois extremos genuínos do mesmo país.
Honestidade obrigatória sobre o Catar: o país acolheu o Campeonato do Mundo de 2022 — o primeiro no Médio Oriente — e enfrentou denúncias documentadas pela Amnistia Internacional, Human Rights Watch e The Guardian sobre condições de trabalho de migrantes sul-asiáticos no estaleiro de oito novos estádios, com estimativas entre 400 e 6.500 mortes ao longo de uma década de obras. O sistema kafala (patrocínio laboral) foi formalmente reformado em 2020, mas a aplicação prática continua desigual. O Catar é monarquia absoluta sob a família Al Thani, o álcool é restrito a hotéis 4-5★, casais homoafectivos não têm reconhecimento legal e o código de vestuário para mulheres exige ombros e joelhos cobertos em espaços públicos. Em Junho de 2017, Arábia Saudita, EAU, Egipto e Bahrein impuseram bloqueio aéreo, terrestre e marítimo de 3 anos e meio — encerrado em Janeiro de 2021 — durante o qual o Catar acelerou a auto-suficiência alimentar e a diversificação económica via Qatar Vision 2030. Estes factos não anulam a cidade; contextualizam o que está a visitar.
Curadoria Voyspark · atualizada mensalmente pela nossa editora residente em Doha.