Xangai é a cidade que decidiu existir em dois séculos ao mesmo tempo. De um lado do rio Huangpu está o Bund — 1,5 km de fachadas neoclássicas, Art Déco e beaux-arts erguidas entre 1900 e 1937 pelos bancos britânicos, franceses e americanos que controlavam a "Concessão Internacional". HSBC, Bank of China, Customs House, Peace Hotel: 52 edifícios listados, cada um com história documentada de capital estrangeiro, ópio, comércio de chá e seda. Do outro lado, a 600 metros de distância, está Pudong — em 1990 era arrozal, hoje é o skyline mais famoso da Ásia: Oriental Pearl (1994), Jin Mao (1999), SWFC (2008), Shanghai Tower (2015, 632m, segundo prédio mais alto do mundo). Atravessar o Huangpu de ferry custa ¥2 e leva 5 minutos. É a viagem no tempo mais barata do planeta.
A French Concession (法租界) é a Xangai que sobrevive em escala humana. De 1849 a 1943 foi território francês autônomo dentro da China — leis francesas, polícia francesa, plátanos plantados como em Paris. Hoje os mesmos plátanos cobrem ruas inteiras de Xuhui e Jing'an, sombreando vilas Art Déco onde funcionam cafés de torrefação própria, livrarias indie, bistrôs franceses reais com chefs vindos de Lyon, lojas de design escandinavo e bares speakeasy em becos sem placa. Wukang Road, Anfu Road, Yongkang Road: três endereços que poderiam estar em Marais. É a única parte de Xangai que se caminha sem pressa — e a única onde o tráfego elétrico silencioso faz sentido cinematográfico.
Em 2026 Xangai virou o destino mais fácil da China graças à transit visa de 144 horas (6 dias) — qualquer brasileiro, americano, europeu ou japonês com passagem para um terceiro país pode entrar sem visto, sem custo, sem formulário antecipado. O programa foi expandido em dezembro de 2024 e o efeito é direto: o turista que antes ia só a Tóquio ou Seul agora encaixa Xangai entre os dois. A cidade respondeu com infraestrutura: o Maglev do aeroporto Pudong (PVG) ao centro faz 30 km em 7 minutos a 430 km/h (o trem comercial mais rápido do mundo, ¥50), o metrô tem 20 linhas e 831 km (a maior rede do planeta), e há vôos diretos de GRU/JFK/LHR/CDG/NRT que pousam em PVG entre 16h e 28h.
O Great Firewall é real e não tem exceção. Google, Instagram, WhatsApp, Facebook, YouTube, ChatGPT, Wikipedia, Gmail e praticamente todo serviço ocidental são bloqueados dentro da China continental — incluindo Xangai. A solução é uma só: instalar e pagar uma VPN ANTES de embarcar (ExpressVPN, Astrill ou NordVPN — testar conexão antes de viajar, porque o site da VPN também é bloqueado depois que você chega). E o pagamento: dinheiro físico praticamente não existe mais — 95% das transações são via WeChat Pay ou Alipay no QR code. Ambos os apps hoje aceitam Visa/Mastercard internacional, mas o cadastro precisa ser feito ANTES da viagem com selfie e passaporte. Sem VPN e sem WeChat/Alipay, Xangai vira ilha sem conexão com nada.
A comida em Xangai é doce — e isso é específico. A cozinha hu cai (本帮菜, "local style") usa açúcar, vinagre escuro de Zhenjiang e molho de soja em quantidades que assustam um pequinês. Xiao long bao (小笼包, bolinhos de sopa) nasceram nos arredores em Nanxiang, 1875: a casca é fina ao ponto de ver o caldo dentro, comer errado queima. Sheng jian bao (生煎包, fritos no fundo, vaporizados em cima) é a versão de rua. Pato laqueado, peixe agridoce, raiz de lótus recheada com arroz glutinoso, caranguejo peludo do Lago Yangcheng (out-nov, ¥300+ a peça). Para o paladar paulistano acostumado a açúcar, Xangai é a cozinha chinesa mais imediata — e o restaurante chinês que você conhece em SP é provavelmente cantonês ou de Sichuan, não daqui.
Sélection Voyspark · mise à jour chaque mois par notre rédactrice résidente à Xangai.