No centro de Cracóvia está a Rynek Główny — a maior praça medieval da Europa, traçada em 1257 sob a Lei de Magdeburgo após a destruição mongol de 1241. Tem exatos 200 metros de lado, 4 hectares de pedra, e no meio dela um único edifício: o Sukiennice (Cloth Hall), a casa-mãe dos comerciantes de tecido desde o século XIV — hoje galeria de arte polonesa no andar de cima e barracas de âmbar embaixo. A cada hora cheia, do alto da torre da Basílica de Santa Maria, um trompetista toca o hejnał mariacki — melodia que interrompe abruptamente no meio, em homenagem ao trompetista do século XIII baleado na garganta por um arqueiro mongol enquanto soava o alarme. Não é encenação para turista: a Rádio Pública Polonesa transmite o hejnał ao vivo todo meio-dia, em rede nacional, desde 1927.
Subindo a Royal Road por dez minutos, chega-se ao Wawel — colina calcária com 228 metros sobre o Vístula, sede real da Polônia de 1038 a 1596 e local de coroação e enterro de quase todos os reis poloneses. O Castelo de Wawel mistura românico do século XI, gótico tardio dos Jagiellões e Renascimento italiano introduzido por Bartolomeo Berrecci nos anos 1500 — pátio com tripla arcada que parece transplantado da Toscana. Ao lado, a Catedral de Wawel guarda os sarcófagos dos reis, o sino Sigismund (1521, 13 toneladas, soa apenas em ocasiões nacionais), e a cripta onde estão sepultados Adam Mickiewicz, o marechal Piłsudski, Lech Kaczyński e o casal Tadeusz Kościuszko. Embaixo da colina, na caverna do Wawel, segundo a lenda do século XII, vivia Smok — o dragão derrotado pelo sapateiro Skuba alimentando-o com um cordeiro recheado de enxofre. Ainda há uma estátua do dragão de bronze que cospe fogo real a cada cinco minutos.
A leste do centro fica Kazimierz — bairro fundado em 1335 pelo rei Casimiro o Grande como cidade separada, e a partir de 1495 designado bairro judaico de Cracóvia por edito de João Olbracht. Por quase 500 anos, Kazimierz foi um dos polos da diáspora judaica europeia: sete sinagogas históricas (a Sinagoga Velha, 1407, é a mais antiga preservada da Polônia), o cemitério Remuh com lápides do século XVI, ieshivas, casas chassídicas. Em 1941, os nazistas forçaram a comunidade a atravessar o rio para o Ghetto de Podgórze. Dali, em sua maioria, foram deportados para Bełżec e Auschwitz; a fábrica de Oskar Schindler em Lipowa 4 (hoje museu) salvou 1.200 trabalhadores. Steven Spielberg filmou A Lista de Schindler em locação aqui em 1993 — a praça Szeroka, as escadarias do Plac Bohaterów Getta, a Apteka pod Orłem. Hoje Kazimierz é o bairro mais boêmio de Cracóvia: bares em sinagogas reformadas, klezmer ao vivo, food trucks de zapiekanka.
A 70 quilômetros a oeste de Cracóvia está o que precisa ser dito de frente: Auschwitz-Birkenau, o maior campo de extermínio do regime nazista, onde 1,1 milhão de pessoas — 90% judias — foram assassinadas entre 1940 e 1945. O complexo é hoje Memorial e Museu Estatal, Patrimônio da UNESCO desde 1979, gratuito (mas com reserva online obrigatória), e a visita guiada de seis horas é a única forma honesta de atravessar Auschwitz I (o campo principal, com o portão Arbeit Macht Frei e os blocos de tijolo) e Birkenau (o campo de extermínio, com os trilhos, as ruínas das câmaras de gás dinamitadas pelos SS em janeiro de 1945, e os 175 hectares de barracas). Não é turismo. É dever. Vá emocionalmente preparado, leve água, vista neutra, e não tire selfie. O ônibus saí da estação Lobzów de Cracóvia a cada 30 minutos, R$ 60 ida e volta, 1h30 de viagem. Reserve com 90 dias de antecedência em maio-setembro.
A mesa polaca em Cracóvia é trabalho de inverno e camponesa por origem: pierogi (massa recheada — ruskie de batata e queijo, mięsem de carne moída, kapusta i grzyby de chucrute com cogumelos), bigos (caçarola de chucrute, repolho fresco, três tipos de carne e ameixa seca cozida por dias), żurek (sopa azeda de centeno fermentado servida em pão de centeio), placki ziemniaczane (panqueca de batata frita), kotlet schabowy (a versão polaca da Wiener Schnitzel). Tudo isso regado com vodka — e Cracóvia leva vodka a sério: Bombay Sapphire é água ao lado da Belvedere, da Chopin, da Wyborowa, da Soplica de pera (essa é a porta de entrada doce). Os pubs do Rynek servem vodka a EUR 2 a dose, e o bar Wódka em Mikołajska tem 100 variedades em prateleira. Por fim: Cracóvia também é a cidade natal de Karol Wojtyła — o papa João Paulo II, nascido em Wadowice (50km) em 1920, arcebispo de Cracóvia 1964-1978. Sua presença ainda está em cada placa, cada janela aberta no palácio episcopal da rua Franciszkańska 3, cada igreja.
Curadoria Voyspark · atualizada mensalmente por nossa editora residente em Cracóvia.