Há uma casa de dois andares pintada de branco e azul em Detroit que parece de família comum. Endereço: 2648 West Grand Boulevard. Foi a primeira sede da Motown Records, comprada por Berry Gordy em 1959 por USD 23.000 (financiados por um empréstimo de USD 800 da família). Lá dentro está o Studio A. Sala pequena, soalho de madeira gasto, piano Steinway de 1877 ainda a funcionar. Foi neste estúdio que Michael Jackson, com 11 anos, gravou "I Want You Back" em Outubro de 1969. E "ABC". E "The Love You Save". E "I'll Be There". Este guia leva-o até lá: tour de 90 minutos, USD 18 a entrada, como chegar a partir de DTW em 25 minutos, onde dormir (The Foundation Hotel ou Shinola), onde comer pizza Detroit-style verdadeira, e como Detroit pós-falência de 2013 se tornou uma das cidades mais interessantes dos EUA para a história da música negra. Mais: como prolongar até Chicago (5h de carro) ou Toronto (4h) e fechar uma rota Motown completa.
17 min de leitura
Berry Gordy tinha 29 anos quando comprou a casa de 2648 West Grand Boulevard em Janeiro de 1959. Era operário da linha de montagem da Ford na fábrica Lincoln-Mercury. Ganhava USD 86 por semana. A casa custou USD 23.000, o equivalente a uns USD 250.000 de hoje. O empréstimo de entrada veio do "Ber-Berry Co-op", um fundo informal da família Gordy onde cada irmão depositava USD 10 por semana. Berry levantou USD 800. O resto financiou em 30 anos.
Entrou na casa com a mulher Raynoma e o filho recém-nascido. Pôs a família no segundo andar e transformou a sala da frente do rés-do-chão em escritório. A garagem nas traseiras virou estúdio. Sala de 25 metros quadrados com pé-direito baixo e isolamento acústico improvisado com placas de Celotex. Chamou-lhe Studio A. Colocou uma placa de néon na fachada onde se lia Hitsville U.S.A. Era ambicioso para um tipo que ainda picava o ponto na linha de montagem.
Dez anos depois, em Outubro de 1969, cinco rapazes de Gary (Indiana) entraram nesse mesmo Studio A para gravar uma música chamada "I Want You Back". O mais novo tinha 11 anos. Chamava-se Michael Joseph Jackson. A música subiu ao número 1 da Billboard em Janeiro de 1970 e ficou lá quatro semanas. Os outros singles que se seguiram naquele ano e meio, "ABC", "The Love You Save", "I'll Be There", todos número 1, todos gravados na mesma sala de garagem.
Hoje a casa continua de pé, mesmo endereço, mesma fachada branca e azul, mesma placa "Hitsville U.S.A." à frente. Virou museu em 1985, quando a irmã Esther Gordy Edwards a transformou em fundação. Em 2026 recebe cerca de 80 mil visitantes por ano. Número modesto comparado a Graceland (550 mil) ou Abbey Road (zilhão de turistas em cima do muro), mas é exactamente isso que torna o sítio especial. Anda lá dentro e tem espaço para parar em frente ao piano onde Stevie Wonder gravou "Signed Sealed Delivered" sem ser empurrado por excursão.
Este guia é para quem quer fazer esta visita bem feita. Endereço exacto, como reservar, o que esperar do tour, e como montar 2 dias em Detroit aproveitando que a cidade pós-falência de 2013 se reinventou de uma forma que pouca gente fora dos EUA acompanhou.
Porque Detroit voltou ao mapa do turismo cultural
TL;DRDetroit declarou falência em Julho de 2013, a maior falência municipal da história americana, USD 18 mil milhões em dívida. Doze anos depois, o downtown está cheio de edifícios restaurados, o Eastern Market é o maior mercado público histórico dos EUA, e a roadtrip de música americana volta a incluir a cidade como paragem obrigatória entre Chicago e Toronto.
Durante décadas, Detroit foi sinónimo de declínio urbano. Auge populacional em 1950: 1,8 milhões de habitantes. Em 2013, quando declarou falência: 700 mil. Fábricas vazias, casas abandonadas em bairros inteiros (Brightmoor, Delray), iluminação pública cortada em algumas ruas, taxa de homicídio entre as cinco piores do país. A imagem ficou colada. O turista internacional simplesmente não pensava em Detroit como destino.
Mas algo começou a mudar depois de 2014. O bilionário Dan Gilbert (Quicken Loans, hoje Rocket Mortgage) comprou mais de 100 edifícios no downtown e começou a restaurar. A empresa Shinola, fundada em 2011 para fabricar relógios em Detroit, virou marca global de luxo industrial. Restaurantes premiados começaram a abrir (Selden Standard ganhou James Beard em 2015, Lady of the House em 2017). Em 2020 a cidade reactivou o sistema de tram QLine, ligando downtown a Midtown.
O Motown Museum também passou por obras. Em 2016 lançou expansão de USD 50 milhões para construir um centro de visitantes anexo, com teatro de 350 lugares, praça externa e área educacional. As obras terminaram em fases. A casa original fica preservada exactamente como era em 1972 (ano em que Gordy mudou a Motown para Los Angeles), e o anexo moderno fica na esquina. Boa decisão de preservação. Visita-se o Hitsville real, depois entra-se no centro novo para exposições rotativas e merch.
Para o português que viajou para os EUA dez vezes e nunca passou em Detroit, é a hora. Voos directos LIS-DTW são limitados, mas Detroit é hub Delta, então a ligação via Atlanta ou via JFK custa o mesmo que para Nova Iorque. Hotelaria no downtown 30-40% mais barata do que Chicago. Comida tão boa quanto. E ainda tem o filtro de "ninguém da minha bolha lá esteve", coisa rara em viagem americana hoje.
Hitsville U.S.A. (Motown Museum): o tour, o que ver, como reservar
TL;DREndereço 2648 West Grand Boulevard, Detroit, MI 48208. Tour guiado de 90 minutos, USD 18 adulto. Reservar via motownmuseum.org com 2 semanas de antecedência mínima (Junho-Agosto esgota com um mês). Não há visita livre. Entra-se só com tour, em grupos de 20 pessoas. Tour de 30 em 30 minutos, primeiro às 9h30, último às 17h.
O bilhete compra três coisas em sequência:
Primeira paragem — Sala de exposição (anexo novo)
Começa-se no centro de visitantes recém-construído. Sala com cronologia da Motown de 1959 a 1972, vitrines com roupas originais de palco (a luva branca de MJ não está aqui, está em Las Vegas, mas tem o primeiro casaco com strass que ele usou no Ed Sullivan Show, aos 10 anos), e ecrã grande a passar o primeiro espectáculo dos Jackson 5 no Ed Sullivan em Dezembro de 1969. Está-se uns 15 minutos nesta sala antes do guia chamar para o tour.
Segunda paragem — A casa original (Hitsville U.S.A.)
Sai-se do anexo, atravessa-se o passeio, entra-se pela porta da frente da casa de 1959. Aqui começa o tour a sério. Primeira sala: escritório de Berry Gordy. Mesa de madeira, máquina de escrever Smith Corona, telefone de baquelite preto. O guia conta que Berry rejeitava 9 em cada 10 demos que chegavam pelo correio. Stevie Wonder foi aceite porque a tia bateu à porta com o rapaz cego de 11 anos a tocar harmónica ali na sala.
Sobe-se escada estreita para o segundo andar. Aqui está a sala de A&R (artists & repertoire), onde os produtores escolhiam quais músicas iam para cada artista. Tem máquina de escutar fitas de 1968 ainda a funcionar. O guia toca um excerto de demo de "I Heard It Through the Grapevine" cantada por Smokey Robinson antes de Marvin Gaye gravar.
Terceira paragem — Studio A (a sala mágica)
Desce-se de volta pelo corredor, atravessa-se cozinha original (frigorífico de 1959 ainda no lugar, com bilhete colado na porta a dizer "Não roubem a Coca-Cola do Berry"), e entra-se no Studio A pelas traseiras.
A sala é mais pequena do que se imagina. 25 metros quadrados. Soalho de madeira escura, gasto pelo arrasto de cabos e amps. Pé-direito baixo (uns 2,80m). Ao fundo, o piano Steinway de 1877, comprado em segunda mão em 1960, usado em praticamente todo o hit Motown de 1960 a 1972. Ainda afinado, ainda a funcionar. Stevie Wonder volta a Detroit de poucos em poucos anos só para tocar nesse piano.
Atrás do piano, a parede tem buraco mal tapado de um dos amps de baixo de James Jamerson (baixista dos Funk Brothers, o gajo que tocou no baixo de praticamente todo single Motown). Jamerson chegou bêbado uma noite em 1969 e atirou o amp à parede. Nunca consertaram como deve ser.
Ao fundo da sala, marca de fita-cola no chão indica onde os Jackson 5 estiveram em Outubro de 1969 quando gravaram "I Want You Back". Os cinco em semicírculo, MJ à frente. Cinco microfones AKG C12 (já não estão lá, emprestados ao Smithsonian). O guia toca um excerto da música pelo sistema de som do estúdio. Ouve-se o mesmo reverb natural da sala que se ouve na gravação de 1969. Arrepio garantido.
Quarta paragem — Loja e praça
Sai-se pelo anexo de novo. A loja vende vinil reedição do catálogo Motown (Stevie Wonder, Marvin Gaye, Temptations, Supremes, preços USD 25-40), t-shirts com logo Hitsville (USD 32), e um livro coffee table de fotografias da casa (USD 65) que vale a pena.
Logística:
- Tour dura 90 minutos exactos. Não há desconto para criança abaixo dos 5 (entra grátis); 5-17 anos USD 10
- Não é permitido tirar fotografia dentro do Studio A (regra estrita, o guia chama a atenção)
- Acessibilidade: o anexo é acessível para cadeira de rodas, mas a casa original tem escada estreita para o segundo andar. Alternativa em vídeo no rés-do-chão
- Estacionamento gratuito ao lado, mas lugares limitados
- Encerrado às segundas (até Abril) e em feriados nacionais
- O bairro à volta (Virginia Park) é tranquilo de dia, sem nada para fazer a pé. Vir de Uber directo
United Sound Systems: onde MJ gravou material a solo
A maior parte dos visitantes fica-se pelo Motown Museum. Mas há um segundo estúdio em Detroit que tem de entrar na lista para fã sério de MJ: United Sound Systems Recording Studios, endereço 5840 Second Avenue, no bairro Cass Corridor (hoje "Midtown").
Fundado em 1933, é o estúdio independente mais antigo dos EUA ainda em operação. George Clinton gravou aqui os discos clássicos dos Funkadelic e dos Parliament (Maggot Brain, One Nation Under a Groove). Aretha Franklin gravou aqui demos antes de ir para Muscle Shoals. E Michael Jackson voltou a Detroit várias vezes nos anos 1970-80 para usar a sala B deste estúdio quando queria uma atmosfera diferente da que a Motown LA oferecia.
O sítio quase se tornou parque de estacionamento em 2014. Uma auto-estrada, a I-94, ia ser alargada e demoliria o edifício. Houve campanha de preservação (Berry Gordy assinou carta), e o estúdio foi salvo. Hoje opera como estúdio comercial activo, mais tour. O tour custa USD 25, dura 1 hora, é preciso marcar por email (unitedsound.com, não tem reserva online).
Vale a pena visitar se tem tempo a mais no segundo dia. Se está apertado, fica como bónus para a próxima. O Motown Museum é o essencial.
Roteiro 2 dias completo em Detroit
TL;DRDois dias dão para fazer Motown Museum + Detroit Institute of Arts + Eastern Market + Henry Ford Museum (Dearborn) + uma noite gastronómica. Três dias se quiser incluir United Sound Systems, Belle Isle, e Corktown com calma.
Dia 1 — Manhã: Motown Museum
- 9h pequeno-almoço no hotel ou no Dime Store (downtown, 719 Griswold St, comida do tipo "diner upgrade", panqueca de batata-doce, USD 18-25)
- 10h Uber para o Motown Museum (15 min do downtown, USD 12)
- 10h30 tour guiado de 90 minutos
- 12h30 Uber de volta ao downtown
Dia 1 — Tarde: Detroit Institute of Arts
Endereço 5200 Woodward Avenue, Midtown. Entrada USD 14 para adulto residente fora da região (residentes de 3 condados, Wayne, Oakland, Macomb, entram grátis, mas isso não o vai beneficiar). O DIA tem uma das melhores colecções de arte do médio oeste americano, mas o atractivo número 1 é o conjunto de murais Detroit Industry Murals de Diego Rivera, 27 painéis pintados em 1932-33 numa sala dedicada (Rivera Court). Rivera passou 11 meses em Detroit a estudar a fábrica Rouge da Ford antes de pintar. É considerado por ele próprio a sua obra mais importante (mais que os murais do Palácio Nacional do México).
Tem também colecção decente de impressionistas (van Gogh auto-retrato, Degas, Monet), arte islâmica e africana. Reservar 2 horas no mínimo.
Dia 1 — Jantar: Selden Standard
Endereço 3921 Second Avenue, Midtown. Restaurante farm-to-table que ganhou James Beard Award em 2015. Pratos pequenos para partilhar, vegetais sazonais (em Maio: espargos de Michigan, ramps), proteína local. Conta média USD 75-95 por pessoa com vinho. Reservar via Resy com 1-2 semanas. Alternativa premium: Grey Ghost (1310 Antietam Ave, Brush Park, steakhouse moderno, USD 90-120).
Dia 2 — Manhã: Eastern Market
Endereço Russell Street + Adelaide. O maior mercado público histórico dos EUA, funciona desde 1891, abre das 6h às 16h ao sábado (é o dia principal). Seis grandes pavilhões (Sheds 2, 3, 4, 5, 6), vendedores de produtos frescos de quintas de Michigan, padarias, queijos do médio oeste, comida pronta. Sábado tem 45 mil visitantes, chegue cedo (8h30-9h) para ter espaço.
Pequeno-almoço ali mesmo: Russell Street Deli (2465 Russell, sanduíche de pastrami que rivaliza com Nova Iorque, USD 18-22) ou Supino Pizzeria (2457 Russell, pizza estilo napolitano).
Dia 2 — Tarde: Henry Ford Museum (Dearborn)
20 minutos de Uber do downtown (USD 30 só ida, combina Uber, há autocarro mas leva 1h). Endereço 20900 Oakwood Boulevard, Dearborn. USD 28 entrada museu, USD 32 combo museu + Greenfield Village (vale a pena se tem o dia inteiro).
O museu cobre história industrial americana. Peças icónicas: o autocarro onde Rosa Parks se recusou a ceder o lugar em 1955 (o autocarro a sério, restaurado), a limusine Lincoln onde Kennedy foi assassinado em 1963 (impressiona pelo cru, placas, sangue limpo mas mancha visível na fibra), cadeira do teatro onde Lincoln foi morto (preservada), e a primeira linha de produção do Ford Modelo T. Para português interessado em história americana, é um dos melhores museus do país. Reservar 4 horas no mínimo se for fazer Greenfield Village (parque ao lado com réplica de cidade do século 19, oficina dos irmãos Wright transplantada de Dayton).
Dia 2 — Jantar: Buddy's Pizza (Detroit-style)
Endereço original: 17125 Conant Street (1946, primeiro Buddy's). Detroit-style pizza é coisa séria. Massa rectangular, queijo Wisconsin brick (não mozzarella), molho POR CIMA do queijo, borda caramelizada do queijo a escorrer pela lateral da forma de aço. Inventada nesse exacto endereço em 1946. Conta USD 25-35 por pessoa, ambiente vintage americano (cabines vermelhas, jukebox).
Alternativa upscale: Lady of the House (1426 Bagley St, Corktown, uma das melhores cozinhas do médio oeste, foco em técnica francesa com produto local, USD 90-130).
Opcional Dia 3 — Belle Isle + Corktown
Belle Isle: ilha de 400 hectares no rio Detroit, projectada por Frederick Law Olmsted (o mesmo do Central Park). Tem aquário (o mais antigo dos EUA ainda em operação), conservatório botânico, fonte James Scott (mármore branco), e vista lindíssima de Detroit + Windsor (Canadá do outro lado do rio). Entrada gratuita para peões, USD 13 para carro.
Corktown: bairro mais antigo de Detroit, fundado por imigrantes irlandeses no século 19. Sofreu décadas de abandono, agora é o bairro mais hipster da cidade. A Ford comprou a antiga Michigan Central Station (estação ferroviária art déco de 1913 que ficou em ruínas durante 30 anos) e restaurou-a de 2018 a 2024, virou campus de inovação. Vale ir só para ver a fachada restaurada. Almoço no Ottava Via (italiano, 1400 Michigan Ave) ou no Folk (1701 Trumbull, pequeno-almoço premiado).
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Onde dormir: hotéis com história em Detroit
The Foundation Hotel — 250 W Larned St, downtown. Edifício do antigo quartel-general do corpo de bombeiros de Detroit (1929), restaurado em 2017 mantendo as portas vermelhas originais das garagens de onde saíam os camiões. Hoje é hotel boutique de 100 quartos, design industrial com mobiliário Shinola (sim, a mesma marca de relógio). O restaurante no rés-do-chão é o Apparatus Room, bem avaliado, pequeno-almoço decente. Diária USD 280-380 (alta entre Maio e Setembro).
Shinola Hotel — 1400 Woodward Avenue, downtown. Inaugurado em 2019, é o "hotel-marca" da Shinola. Cinco edifícios históricos restaurados, integrados num único hotel de 129 quartos. O lobby tem livraria curada pelos Hudson's, café-bistrô, e tudo decorado com produtos Shinola (relógios, colunas, bicicletas). Mais caro: USD 320-450/noite. Localização ímpar, em frente à Woodward Avenue, a 5 minutos a pé do Detroit Opera House e do estádio Comerica Park (Tigers).
Westin Book Cadillac Detroit — 1114 Washington Boulevard. Edifício histórico de 1924 (33 andares, era o hotel mais alto do mundo na inauguração). Quartos grandes, pequeno-almoço farto, programa Marriott Bonvoy. USD 230-320/noite. Boa opção para fã de Bonvoy a juntar pontos.
Element Detroit at the Metropolitan — 33 John R Street. Marriott Element em edifício histórico restaurado de 1925. Apartamentos com kitchenette (útil para família). USD 180-250/noite, melhor relação custo-benefício das três opções premium.
Evite hotéis fora do downtown / Midtown. A cidade ainda tem áreas problemáticas e o Uber para distância maior pesa.
Como chegar e custos reais 2026
Voo internacional
O Detroit Metropolitan Airport (DTW) é hub Delta. Não existe voo directo regular LIS-DTW. Opções práticas para português em 2026:
- Via Atlanta (ATL): LIS-ATL-DTW na Delta. Ligação 2h em ATL. Tempo total 14-15h. Tarifa USD 850-1.200 ida e volta classe económica
- Via Nova Iorque (JFK): LIS-JFK-DTW na Delta ou American. Ligação 2-3h em JFK. Tempo total 14-15h. Tarifa similar
- Via Toronto (YYZ): LIS-YYZ na Air Canada, depois carro alugado (4h directo, atravessa pelo Tunnel Windsor-Detroit ou Ambassador Bridge). Bom se quiser combinar Toronto na viagem
- Via Miami (MIA): rota possível mas ligação mais demorada (16-18h total)
Aeroporto DTW para downtown Detroit: 25 minutos de Uber, USD 35-50 (alta com surge). Não há comboio urbano. Autocarro FAST 261 (rota Michigan Avenue) sai do aeroporto para o downtown de 30 em 30 min, USD 2, mas demora 1h e tem de andar com mala no centro de transferência. Uber compensa.
Custo estimado de 3 dias em Detroit (1 pessoa)
- Alojamento 2 noites (Element ou Foundation): USD 480-700
- Comida (3 pequenos-almoços + 3 almoços + 2 jantares): USD 280-400
- Atracções (Motown Museum + DIA + Henry Ford + Belle Isle): USD 75
- Transporte local (Ubers + estacionamentos): USD 100-140
- Total 3 dias: USD 935-1.315 (~EUR 850-1.200)
Não inclui o voo internacional.
Combinar Detroit numa roadtrip maior
A graça real de Detroit em 2026 é tratá-la como paragem de roadtrip de música americana, não destino isolado. Duas combinações funcionam excelentemente:
Rota Motown → Chess (Detroit → Chicago, 5h de carro)
Sai de Detroit pela I-94 oeste. 5h directas até Chicago via Indiana (passa por Gary, terra natal dos Jackson 5, embora já não tenha nada lá para ver). Em Chicago, foco em:
- Chess Records Studio (2120 South Michigan Avenue), onde Muddy Waters, Howlin' Wolf, Chuck Berry e Etta James gravaram. Os Rolling Stones gravaram "2120 South Michigan Avenue" como tributo. Hoje é o Willie Dixon's Blues Heaven Foundation, tour USD 15
- Buddy Guy's Legends (700 S Wabash), clube de blues legítimo, Buddy Guy ainda toca lá em Janeiro
- Pizza estilo Chicago (Lou Malnati's, Pequod's), para comparar com Detroit-style e tomar partido na briga eterna
Roteiro completo Detroit (2 dias) + Chicago (3 dias) = 5 dias no mínimo, sai por USD 1.800-2.500 incluindo aluguer de carro.
Rota Detroit → Toronto (4h de carro)
Atravessa pelo Detroit-Windsor Tunnel (USD 5 portagem) ou Ambassador Bridge. Passaporte obrigatório (Canadá é país separado). Português precisa de eTA, autorização electrónica online, CAD 7, 5 minutos para emitir.
Em Toronto: 3-4 dias dão para fazer CN Tower, Distillery District, Kensington Market, ROM, e dia em Niagara Falls (1h30 de carro). Bónus para fã de música: o Lee's Palace em Toronto é templo do indie rock canadiano desde 1985.
Roteiro Detroit (2 dias) + Toronto (3 dias) + Niagara (1 dia) = 6 dias, USD 2.200-2.800 com aluguer de carro e câmbio canadiano.
Rota completa "Great Lakes Music Roadtrip"
Para quem tem 10 dias e quer fazer tudo: Chicago (3) + Detroit (2) + Toronto (3) + Niagara (1) + regresso. Aluguer de carro one-way custa caro (taxa de devolução em estado diferente, USD 200-400), mas viável. Roteiro completo sai USD 3.500-4.500 por pessoa incluindo voo Lisboa-Chicago e regresso Toronto-Lisboa.
Melhor época para visitar Detroit
Maio a Setembro: alta temporada, clima agradável (20-28°C), Belle Isle aberto, festivais (Detroit Jazz Festival em Setembro, gratuito, no Hart Plaza). Hotéis 30-40% mais caros. Motown Museum esgota com 3-4 semanas de antecedência.
Outubro: temporada de fall foliage (folhagem de Outono colorida). Clima frio mas ainda ok (10-18°C). Hotéis começam a baixar. Boa janela.
Novembro a Março: Inverno duro do médio oeste americano (-5 a 5°C, neve frequente). Visita ao Motown Museum funciona normalmente (interior), mas Belle Isle e actividades exteriores ficam comprometidas. Hotéis mais baratos. Aceitável se for resistente ao frio e quiser pagar menos.
Abril: transição. Clima instável (5-15°C, chuva). Hotéis ainda em baixa temporada. Aceitável.
Etiqueta de visita ao Motown Museum
A casa é monumento histórico nacional desde 2024. Está a pisar a sala onde Michael Jackson era criança quando gravou clássico. Algumas regras não escritas vale a pena respeitar:
- Não toque o piano Steinway no Studio A. Há corda de veludo a separar. Visitante já tentou, e o museu já trocou tampo de teclado duas vezes desde 2010
- Fotografia só nas áreas exteriores e anexo. Dentro do Studio A é proibido (regra estrita, guia chama a atenção)
- Silêncio durante reprodução de áudio. Quando o guia toca excerto de "I Want You Back" no estúdio, é momento solene para muita gente, a sensação de ouvir a música no sítio onde foi gravada é forte. Respeite quem está a absorver
- Gorjeta para o guia: voluntária mas comum. USD 5-10 por pessoa se o tour foi bom (e geralmente é, os guias são fanáticos, muitos viveram Detroit nos anos Motown)
- Bairro Virginia Park à volta: tranquilo de dia, mas é zona residencial de família. Não fique a vaguear por ruas laterais a fotografar casa alheia
Por que esta visita importa para o português
Há português que cresceu a ver Michael Jackson na RTP nos anos 80, na MTV nos anos 90, comprou Thriller em vinil ou CD, decorou letra de "Billie Jean" sem perceber uma palavra. Esse fã agora tem 45-55 anos, com filho adolescente que descobriu MJ pelo Spotify e ficou impressionado.
Visitar o Hitsville U.S.A. é diferente de visitar Graceland (terra do Elvis em Memphis). Graceland é templo do excesso, mansão dourada, jardim gigante, mausoléu. Hitsville é o oposto: casa modesta, garagem virou estúdio, piano em segunda mão. A história fica mais palpável porque o sítio é pequeno e a escala humana é evidente.
Sai-se de lá a perceber que "I Want You Back", música que até hoje é referência de pop perfeito, foi gravada por um rapaz de 11 anos numa garagem em Detroit em 1969, com cinco microfones, um piano de 1877 e um buraco mal tapado na parede atrás do baixista. É o tipo de viagem que muda a forma como ouve a música depois.
Para fã sério de Michael Jackson ou da era Motown, Hitsville é peregrinação obrigatória, juntamente com Neverland (que não abre a visita pública), Gary Indiana (onde a casa da família Jackson ainda existe mas é pequena demonstração), e Las Vegas (Cirque du Soleil ONE Michael Jackson, espectáculo permanente). Detroit fica no topo da lista porque é o sítio onde a música começou.
Para fã casual de música americana, Detroit ainda assim entrega. O conjunto de Motown Museum + Detroit Institute of Arts (com os murais de Diego Rivera) + Eastern Market + Henry Ford Museum é forte o suficiente para 2-3 dias bem aproveitados, em cidade onde ninguém da sua bolha esteve.
Decida se a roadtrip é Detroit-Chicago (música), Detroit-Toronto (cidade global completa) ou Great Lakes inteiro (10 dias). Compre a passagem Delta via Atlanta. Reserve o tour do Motown Museum agora, não na véspera. Ponha o Foundation Hotel no Booking. E prepare-se para ouvir "I Want You Back" nos auriculares enquanto atravessa a rua de West Grand Boulevard, a olhar para a placa de néon azul que diz Hitsville U.S.A., fachada exactamente igual à de 1959, e a pensar que dentro daquela casa, um rapaz de 11 anos chamado Michael gravou um dos maiores singles do século 20 numa garagem de 25 metros quadrados.
Detroit voltou ao mapa. Vale a pena ir agora, antes de virar fila de excursão.
Key points
Motown Museum / Hitsville USA: 2648 West Grand Boulevard, Detroit MI. Entrada USD 18, tour guiado obrigatório de 90 minutos, reservar com 2 semanas de antecedência (esgota rápido entre Junho e Agosto)
Studio A: a sala onde os Jackson 5 gravaram "I Want You Back" (Out/1969, MJ com 11 anos), "ABC", "The Love You Save", "I'll Be There" (1970-71). Piano Steinway original ainda no lugar
United Sound Systems Recording Studios: 5840 Second Avenue. Onde MJ voltou para gravar material a solo, e onde George Clinton fez Funkadelic
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