Medina é a segunda cidade santa do Islã, atrás apenas de Meca. Foi para cá que o profeta Maomé migrou em 622 da Era Comum — a Hégira, ponto zero do calendário islâmico —, fundando ali a primeira comunidade muçulmana organizada e transformando uma oasis de tâmaras chamada Yathrib na al-Madinah al-Munawwarah, "a cidade iluminada". 1,5 milhão de habitantes hoje, 400 km ao norte de Meca, no coração do Hejaz. Para 1,9 bilhão de muçulmanos no mundo, esta é a segunda parada obrigatória depois da peregrinação a Meca. Para o resto do planeta, foi por décadas uma cidade quase inacessível — até 2019.
No centro está a Masjid an-Nabawi, a Mesquita do Profeta. Foi construída pelo próprio Maomé em 622 e expandida por sucessivos califas até virar o complexo de mármore branco, dez minaretes e capacidade para 1 milhão de fiéis que se vê hoje. Sob a Green Dome (a cúpula verde icônica, pintada nessa cor em 1837 pelo sultão otomano Mahmud II) está o túmulo do Profeta, junto aos primeiros califas Abu Bakr e Omar. O interior da mesquita — incluindo a Rawdah, a "jardim do paraíso" entre o púlpito e o túmulo do Profeta — é restrito a muçulmanos. A área externa, a praça de mármore com 27 cúpulas retráteis e os mercados ao redor, está aberta a todos.
O que mudou em 2019 foi a abertura turística histórica. Como parte do plano Saudi Vision 2030 do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, o reino lançou o e-visa para viajantes de 50+ nacionalidades por USD 90, válido por um ano, múltiplas entradas. Pela primeira vez na história moderna, não-muçulmanos podem visitar Medina legalmente. As regras se mantêm claras: interior das mesquitas haram (sagradas) só para muçulmanos, vestimenta modesta obrigatória em toda a cidade (mulheres precisam cobrir cabelos próximo a Masjid an-Nabawi, abaya recomendada), álcool proibido em todo o território nacional, comportamento público respeitoso ao calendário religioso (especialmente durante Ramadã e período de Hajj, quando milhões de peregrinos chegam).
Fora da Masjid an-Nabawi, a cidade oferece a Quba Mosque a 5 minutos — a primeira mesquita do Islã, fundada pelo próprio Profeta ao chegar de Meca em 622, também observável externamente —, o Monte Uhud a 30 minutos com o campo de batalha de 625 EC onde o Profeta foi ferido, e o museu Dar Al Madinah que explica a arqueologia urbana islâmica. A culinária local gira em torno do mandi (cordeiro ou frango com arroz aromatizado cozido lentamente em forno subterrâneo de barro), kabsa (o prato nacional saudita, arroz basmati com carne e sete especiarias), saleeg (arroz cremoso parecido com risoto, hejazi tradicional), e o mhalbi de sobremesa (pudim de leite com água de rosas e pistache). Al Baik, a rede saudita de frango frito, é instituição. O Spice Souk Datterada vende mais de cem variedades de tâmaras — a fruta-símbolo da região.
Medina é também porta para o Hejaz inteiro. A 3 horas de voo está AlUla, o sítio UNESCO de tumbas nabateias talhadas em rocha (mesma civilização que construiu Petra, vizinhos pelo norte). Jeddah, a 4 horas de carro pela costa do Mar Vermelho, oferece o contraste cosmopolita do reino. Meca fica a 4 horas de carro ao sul mas é restrita a muçulmanos. Visitar Medina em 2026 é assistir a um experimento civilizacional em tempo real: uma das cidades mais conservadoras e religiosamente significativas do mundo islâmico se abrindo de forma controlada ao turismo internacional, num equilíbrio delicado entre preservação do sagrado e diversificação econômica pós-petróleo. Para o viajante respeitoso e curioso, é uma janela rara para um lugar que poucas pessoas fora da fé chegaram a conhecer.
Curadoria Voyspark · atualizada mensalmente pela nossa editora residente em Medina.