Não é lista de filmes. É um mapa. De Julie & Julia em Paris a Tampopo em Tóquio, dez cozinhas que se tornaram cinema e voltaram a ser realidade — com restaurante, prato e custo. O que comer em cada cidade depois de assistir.
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Há um tipo de filme que não se vê — come-se. Saímos da sessão com fome, com saudades de uma cidade onde nunca pusemos os pés, com a sensação estranha de que precisamos, de alguma forma, ir até àquele bistrô parisiense, àquele mercado de Roma, àquela carrinha de comida em Miami. O cinema culinário tem esse poder estranho: não vende destino, vende mesa.
E o curioso é que, na maioria das vezes, a mesa existe.
Quando Julie Powell decide cozinhar todas as 524 receitas do livro de Julia Child, ainda não sabe que vai enviar gente do mundo inteiro para Paris à procura do mesmo boeuf bourguignon. Quando Elizabeth Gilbert come aquele prato de spaghetti carbonara em Roma e abre os olhos pela primeira vez em meses, não imagina que a trattoria onde a cena foi filmada se transformará em fila de turistas durante uma década. Quando o chef Carl Casper finalmente prepara o cubano perfeito em Miami, está a reinventar uma sanduíche que existe, em Cuba, há quase cem anos.
Este guia é para quem viu os filmes e ficou com a pergunta certa: onde, exactamente, como isto?
Dez filmes. Dez cidades. Dez pratos com nome, morada e o que esperar. Não é roteiro Michelin nem ranking de TripAdvisor. É o que acontece quando se atravessa o ecrã e se senta à mesa.
1. Julie & Julia → Paris (bistrôs clássicos)
TL;DRBoeuf bourguignon. É por aí que tudo começa. O filme de Nora Ephron (2009) faz duas coisas ao mesmo tempo: conta a história de Julia Child a aprender a cozinhar francês em Paris nos anos 50, e a de Julie Powell a tentar reproduzi-la num apartamento minúsculo do Queens.
Boeuf bourguignon. É por aí que tudo começa.
O filme de Nora Ephron (2009) faz duas coisas ao mesmo tempo: conta a história de Julia Child a aprender a cozinhar francês em Paris nos anos 50, e a de Julie Powell a tentar reproduzi-la num apartamento minúsculo do Queens. Mas o que fica na cabeça, depois dos créditos, é Paris. Os bistrôs com toalha de xadrez, o pão fresco, o pato com laranja, o vinho da casa que chega sem se pedir.
Não é nostalgia. Estes lugares ainda existem.
Le Comptoir du Relais (5 Carrefour de l'Odéon, 6e), do chef Yves Camdeborde, é o bistrô que mais respeita aquela cozinha de matriz que Julia aprendeu. Reserve o jantar com três semanas de antecedência (sim, três) ou vá ao almoço de terça sem reserva. Peça o boeuf bourguignon, o boudin noir com puré de maçã, ou o pâté en croûte como entrada. Conta para dois: €90-120.
Frenchie (5 Rue du Nil, 2e), de Gregory Marchand, é a versão moderna desta tradição. Não copia Julia — compreende-a. Menu de degustação de 5 tempos por €98 por pessoa. Reserva online dois meses antes ou perda de tempo.
Septime (80 Rue de Charonne, 11e), de Bertrand Grébaut, é onde a próxima geração escreveu o capítulo seguinte. Uma estrela Michelin, lista de espera de três meses, e o melhor menu de degustação de Paris abaixo de €100 (sai por €95).
O que se aprende ao ver o filme e ir aos três? Que a cozinha francesa não morreu nos anos 70, como se dizia. Apenas mudou de mãos. E que Paris, mesmo turística até ao osso, ainda tem bistrôs onde o dono trabalha na sala.
2. Eat Pray Love → Roma e Bali
TL;DRA cena do spaghetti carbonara é o coração de Eat Pray Love (2010). Elizabeth Gilbert sentada sozinha numa trattoria romana, a comer com as mãos, a chorar entre garfadas. É uma das poucas vezes em que o cinema americano percebeu que comer pasta em Roma não é refeição — é confissão.
A cena do spaghetti carbonara é o coração de Eat Pray Love (2010). Elizabeth Gilbert sentada sozinha numa trattoria romana, a comer com as mãos, a chorar entre garfadas. É uma das poucas vezes em que o cinema americano percebeu que comer pasta em Roma não é refeição — é confissão.
Da Enzo al 29 (Via dei Vascellari, 29, Trastevere) é onde aquela alma de trattoria sobrevive. Sem reserva, fila de uma hora a partir das 19h, 30 lugares, mesa partilhada. Peça a carbonara (a verdadeira, sem natas, com guanciale e pecorino), a cacio e pepe, a coda alla vaccinara. Conta para dois: €50-70.
Trattoria Tritone (Via dei Maroniti, 1), perto da Fontana di Trevi, é o sítio onde a Liz teria comido se tivesse mais coragem para se afastar do bairro turístico. Família Cipriani, três gerações, abóbora frita, saltimbocca à romana, tiramisù feito na hora. Conta para dois: €60-80.
Depois Roma transforma-se em Bali. A parte indiana do filme (Ashram) é interna, mas Bali abre o mapa de novo.
Ubud é o destino real. Não os resorts de Seminyak. Ubud, o vale verde no meio da ilha, onde a Liz come o nasi campur — a bandeja com arroz e cinco ou seis acompanhamentos. Warung Pulau Kelapa (Jalan Raya Sanggingan) serve isto por menos de €8 por pessoa. Hujan Locale (Jalan Sri Wedari, 5) é a versão chef-driven moderna, com bebe guling e rendang refinados. €25 por pessoa.
Roma ensina-te a comer como confissão. Bali ensina-te a comer como meditação. As duas funcionam.

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Curadoria Voyspark
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Time editorial da Voyspark — escritores, repórteres, fotógrafos e fixers em Lisboa, Tóquio, Nova York, Cidade do México e Marrakech. Coletivo. Sem voz corporativa. Cada peça com checagem cruzada por um editor regional e um chef ou curador local.
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