A Autorização de Retorno ao Brasil, a ARB emitida pelos consulados e embaixadas do país, é o documento que devolve ao avião quem teve o passaporte roubado ou perdido fora do Brasil, mas ela vale só para um trajeto: um voo direto, ou com escala técnica, até o território brasileiro, nunca para entrar em país que exija visto. O primeiro passo é sempre o boletim de ocorrência na polícia local, que sustenta o pedido no consulado. Na maioria dos postos a ARB sai isenta de taxa em 24 a 72 horas; sem cópia do passaporte antigo, o mesmo trâmite pode levar o dobro do tempo.
15 min de leitura
1. O documento que ninguém carrega até precisar: o que é a ARB
TL;DRA Autorização de Retorno ao Brasil (ARB) é um documento provisório emitido por consulados e embaixadas brasileiras, não um passaporte novo. Serve só para 1 viagem: o trajeto de volta ao Brasil. A maioria dos postos consulares não tem estrutura para emitir passaporte comum em poucos dias, por isso recorre à ARB.
A ARB é o que a diplomacia chama de documento de viagem de emergência: uma folha com foto, dados básicos e validade curta, reconhecida pela Receita Federal, pela Polícia Federal e pelas companhias aéreas brasileiras como suficiente para um único embarque rumo ao Brasil. Ela existe porque nem todo posto consular tem capacidade de emitir um passaporte comum novo no estrangeiro. A produção do passaporte brasileiro é centralizada, e só um punhado de postos maiores (Lisboa, Nova Iorque, Miami, Londres, Paris, entre poucos outros) tem equipamento e fluxo de dados para gerar um documento definitivo em dias. Nos demais, a única saída rápida é a ARB.
Vale separar duas ideias que se confundem na cabeça de quem está em pânico numa esquadra estrangeira: a ARB não é uma segunda via do passaporte, e não tem validade para nada além de embarcar de volta. Ela não serve como identidade para alugar carro, abrir conta, entrar numa discoteca ou provar maioridade. Serve para uma coisa: sentar num avião com destino ao Brasil. Por isso o consulado pergunta, logo de início, qual é o voo e a data, porque o documento é emitido a pensar nesse trajeto específico.
A base legal vem da Convenção de Viena sobre Relações Consulares, que autoriza representações diplomáticas a prestar assistência documental a nacionais em dificuldade. Na prática brasileira, isso transforma-se num processo simples de descrever e mais complicado de executar sob stress, com fuso horário contra você e um voo que não espera.
2. A ordem que evita perder dias: primeiro o B.O., depois o consulado
TL;DRA ordem importa: primeiro o boletim de ocorrência na polícia do país onde o roubo aconteceu, só depois o consulado. Sem B.O. em mãos, muitos postos recusam abrir o pedido de ARB no mesmo dia, porque o documento é a prova formal que sustenta todo o pedido.
O erro mais comum de quem nunca passou por isso é ligar primeiro para o consulado, ou pior, aparecer à porta sem nenhum papel. O consulado não investiga o furto, não sabe se você perdeu o passaporte na mochila ou se ele foi roubado numa esquina, e não tem competência para registar isso. Quem faz esse registo é a polícia do país onde você está, na jurisdição onde o facto ocorreu.
O boletim de ocorrência cumpre três funções ao mesmo tempo. Primeiro, formaliza a data e as circunstâncias, o que protege você caso alguém use o documento roubado de forma fraudulenta. Segundo, é a peça que o consulado exige para abrir o processo de ARB, porque sem um registo oficial não há base para atestar que o passaporte de facto desapareceu. Terceiro, é o documento que a seguradora de viagem, se você tiver uma, vai pedir para processar qualquer reembolso.
Em vários países é possível registar o boletim online, o que corta uma etapa presencial: Reino Unido, parte da Europa continental e algumas cidades dos Estados Unidos têm sistema de denúncia não emergencial pela internet, que gera um número de protocolo aceite pelo consulado. Vale perguntar isso já na primeira chamada, porque poupa a fila de uma esquadra estrangeira, que costuma ser mais lenta e mais burocrática do que parece à distância.
3. Dentro do consulado: documentos, fila e o que perguntam
TL;DRNo balcão do consulado, o pedido de ARB exige boletim de ocorrência, formulário preenchido, 2 fotos 5x7 e algum documento que prove identidade e nacionalidade brasileira, mesmo que seja uma cópia. Postos grandes atendem emergência sem marcação; os menores pedem para ligar antes.
A lista de documentos muda pouco de posto para posto: boletim de ocorrência, formulário de solicitação (disponível no site do consulado ou preenchido no balcão), duas fotos recentes no formato 5x7 com fundo branco, e alguma prova de identidade e nacionalidade brasileira. Aqui está o ponto crítico: essa prova pode ser uma cópia do passaporte roubado, a certidão de nascimento, o título de eleitor, a carta de condução, ou até uma foto tirada do próprio passaporte antes da viagem. Quanto mais fraca essa prova, mais demorado fica o processo, porque o funcionário consular precisa recorrer a verificação indireta.
Consulados-gerais e embaixadas em cidades grandes costumam ter um balcão de emergência que atende sem hora marcada para casos de roubo ou perda de documento, precisamente porque sabem que o viajante está com voo marcado. Postos menores, muitas vezes chamados de vice-consulados ou consulados honorários, não têm essa estrutura e pedem contacto telefónico prévio, o que pode significar esperar até ao dia seguinte só para conseguir um horário.
Um detalhe que poupa tempo: leve também o comprovativo da passagem de volta, mesmo que seja só a reserva no telemóvel. O consulado usa essa informação para calcular a validade da ARB e para confirmar que a rota escolhida não passa por país problemático, o assunto da secção seguinte.
4. O que a ARB não permite: escala em país que exige visto
TL;DRA ARB não é passaporte: ela só é reconhecida para o trajeto direto até ao Brasil. Uma escala em país que exige visto de entrada ou trânsito, como Estados Unidos ou Reino Unido, deita o plano por terra, porque a imigração local barra o documento e a companhia aérea recusa o embarque.
Este é o ponto onde mais gente se atrapalha, porque a passagem original, comprada semanas antes do roubo, muitas vezes tem escala num hub como Miami, Houston ou Londres. Com passaporte comum, essa escala é rotina. Com a ARB, ela transforma-se num problema real: o documento não é reconhecido pela imigração de terceiros países como válido para entrada, e em vários casos nem para trânsito internacional dentro do próprio aeroporto. O resultado prático é a companhia aérea recusar o check-in do primeiro trecho, porque é responsabilizada se desembarcar um passageiro sem documento aceite no destino intermédio.
| Situação | A ARB cobre? | Observação |
|---|---|---|
| Voo direto até ao Brasil | Sim | Rota recomendada por todos os consulados |
| Escala técnica, sem desembarque e sem passar pela imigração | Normalmente sim | Depende da política de cada companhia aérea |
| Escala com troca de avião em país que exige visto (Estados Unidos, Reino Unido) | Não | Risco real de embarque negado no primeiro trecho |
| Escala em país que não exige visto de brasileiros | Costuma ser tolerada | Confirmar com a companhia antes de remarcar |
A recomendação prática, repetida por praticamente todo o consulado brasileiro, é simples: priorize o voo mais direto possível, mesmo que custe mais caro ou demore mais a sair. Antes de remarcar seja o que for, ligue para a companhia aérea e pergunte explicitamente se aceita a ARB brasileira na rota escolhida. Muitas companhias latino-americanas e a própria bandeira brasileira já lidam com isso rotineiramente; companhias americanas e europeias costumam ser mais rígidas.
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5. Quanto custa, de verdade
TL;DRA emissão da ARB costuma ser gratuita na maioria dos consulados brasileiros. O custo real está nas fotos 5x7, no deslocamento até ao posto e, sobretudo, na eventual remarcação da passagem para um trajeto sem escalas, que pode custar várias centenas de dólares a mais.
A boa notícia financeira nesta história toda é a própria ARB: por se tratar de assistência a brasileiros em situação de vulnerabilidade, a emissão costuma ser isenta de taxa consular na maioria dos postos. Isso muda pouco entre países, porque a política vem do Itamaraty, não do consulado individual.
| Item | Custo estimado |
|---|---|
| Emissão da ARB | Isenta na maioria dos postos |
| Fotos 5x7 (2 unidades) | US$ 5 a 15 |
| Boletim de ocorrência | Gratuito na maioria dos países |
| Remarcação de passagem para voo direto | Algumas centenas a mais de US$ 1.000, conforme a rota |
| Alojamento extra durante a espera | Variável, conforme destino e estação |
O gasto que pesa de verdade é o indireto: a passagem original comprada com escala fica sem valor se a rota passar por país problemático, e comprar um trecho novo, de última hora, para um voo direto, costuma sair mais caro do que a tarifa original inteira. É aqui que o seguro de viagem, se existir, faz diferença real, porque parte das apólices cobre remarcação em caso de perda de documento, mesmo que a cobertura específica de "passaporte roubado" seja rara. Vale ligar para a central do seguro assim que o boletim de ocorrência estiver em mãos, antes de comprar qualquer passagem nova, para perceber o que entra e o que não entra na cobertura.
6. Prazos reais: quanto tempo leva a emissão da ARB
TL;DREm postos grandes (embaixadas e consulados-gerais de cidades como Lisboa, Nova Iorque ou Londres), a ARB costuma sair no mesmo dia útil ou no seguinte. Em cidades menores, sem posto próprio, o viajante por vezes precisa de se deslocar até à capital mais próxima, o que soma dias ao prazo.
Prazo é a variável que mais depende de onde o roubo aconteceu, não de regra fixa. Postos grandes, com quadro de funcionários dedicado a assistência consular, resolvem o pedido em horas quando o viajante chega com todos os documentos e o B.O. em mãos. Postos pequenos, sobretudo os consulados honorários geridos por um único funcionário a tempo parcial, dependem de contacto com o posto de referência para autorizar a emissão, o que pode levar dias.
| Tipo de posto | Prazo típico |
|---|---|
| Embaixada ou consulado-geral em capital grande | Mesmo dia útil ou dia seguinte |
| Consulado menor, sem toda a estrutura | 2 a 4 dias úteis |
| Cidade sem posto consular brasileiro | Depende do deslocamento até ao posto mais próximo |
| Pedido fora do horário comercial ou véspera de feriado | Alguns dias a mais, até ao próximo expediente |
O detalhe que ninguém avisa: fuso horário e feriado local somam atraso invisível. Um roubo numa sexta-feira à noite numa cidade pequena da Europa pode significar só reabrir o consulado na segunda-feira, porque feriados religiosos e pontes locais não seguem o calendário brasileiro. Quem conseguir deve tentar registar o B.O. e ligar para o consulado ainda no mesmo dia, mesmo fora do horário de atendimento, porque muitos postos têm linha de emergência 24 horas para casos de documento roubado, diferente do atendimento consular de rotina.
7. Por que a cópia digital do passaporte muda tudo
TL;DRTer uma foto ou PDF da página de dados do passaporte guardado no e-mail ou na nuvem, fora do telemóvel que pode ser roubado junto, corta o tempo de verificação de identidade de dias para horas. Sem nenhuma cópia, o consulado depende de checagem remota, mais lenta.
Isto soa óbvio até acontecer consigo. O passaporte desaparece, o telemóvel por vezes desaparece junto (se o roubo foi de bolsa ou mochila inteira), e a única prova de que aquele nome, número e nacionalidade existiam é o que estiver guardado fora do objeto físico roubado. Uma foto da página de dados, enviada por e-mail para si mesmo antes da viagem, ou guardada num serviço de nuvem acessível a partir de qualquer computador, resolve o problema na hora: o funcionário consular confere o número do passaporte antigo, a data de nascimento e a foto, e segue direto para a emissão da ARB.
Sem essa cópia, o processo não bloqueia, mas fica mais lento e mais burocrático. O consulado pode precisar de consultar sistemas da Polícia Federal remotamente, pedir que um familiar no Brasil envie documentos digitalizados, ou aceitar outras provas de identidade em conjunto, como carta de condução e certidão de nascimento, o que exige que o viajante tenha levado esses papéis na mala, algo que a maioria não faz.
A prática que vale adotar antes de qualquer viagem internacional: tirar foto de todas as páginas relevantes do passaporte, enviar para o próprio e-mail, guardar uma cópia impressa separada da bagagem principal (na mochila de mão, não na mala despachada) e, se possível, deixar uma terceira cópia com alguém de confiança no Brasil. Nenhuma destas medidas custa nada, e a diferença prática é a mesma entre resolver tudo numa tarde e perder dois ou três dias de viagem à espera de confirmação.
8. Erros que atrasam o regresso (e como evitar)
TL;DROs atrasos mais comuns são evitáveis: comprar de volta a passagem antiga com escala em país que exige visto, ir direto ao consulado sem o B.O., ou não ter nenhum documento secundário (carta de condução, certidão de nascimento) que comprove identidade enquanto a ARB não sai.
O primeiro erro, já citado, é tentar usar a passagem original com escala problemática só porque já está paga. Vale mais a pena absorver o prejuízo de um trecho não utilizado e comprar um voo direto do que descobrir no balcão de check-in que o embarque foi negado, com o consulado já fechado e o dia perdido.
O segundo erro é a ordem invertida: correr para o consulado sem passar pela esquadra primeiro. Isso não poupa tempo, faz o oposto, porque o funcionário vai mandá-lo voltar com o B.O. de qualquer forma, e a viagem de ida e volta consome o mesmo tempo que teria levado fazer certo desde o início.
O terceiro erro é viajar sem nenhum documento secundário. Quem carrega carta de condução, uma cópia da certidão de nascimento ou até um cartão de vacinação com nome completo tem uma segunda linha de defesa quando a foto do passaporte não está guardada em lado nenhum. Quem não carrega nada depende inteiramente da boa vontade e da velocidade dos sistemas remotos, que variam de posto para posto.
Um quarto erro, mais subtil, é não avisar o hotel, o alojamento ou os companheiros de viagem sobre o roubo. Isso importa porque, em muitos casos, é o hotel que confirma ao consulado que aquele hóspede está de facto registado ali, uma camada extra de verificação que ajuda quando a papelada formal está incompleta.
9. De volta ao Brasil: o que fazer com a ARB na mão
TL;DRA ARB é retida pela Polícia Federal na chegada ao Brasil: não se transforma em passaporte definitivo. O viajante precisa de agendar a emissão de um passaporte comum assim que possível, sobretudo se houver outra viagem internacional planeada para as semanas seguintes.
O desembarque em solo brasileiro não fecha o assunto, abre a última etapa. Na imigração da Polícia Federal, a ARB é apresentada, registada e recolhida, porque o seu propósito, o regresso ao país, já foi cumprido. A partir desse momento, o viajante está no Brasil sem nenhum documento de viagem válido, o que é normal para quem mora ali, mas transforma-se num problema se houver outra saída internacional planeada em pouco tempo.
O passo seguinte é agendar a emissão de um passaporte comum novo, processo que segue o rito padrão da Polícia Federal: marcação pelo site, pagamento da taxa em vigor na tabela oficial, comparência com os documentos de identidade restantes, e prazo de entrega que costuma variar de poucos dias a algumas semanas, dependendo da procura no posto escolhido. Vale confirmar o valor atualizado diretamente no site da Polícia Federal antes de agendar, porque a taxa muda periodicamente.
Um ponto que passa despercebido: o passaporte antigo, o que foi roubado, é automaticamente invalidado no sistema assim que a ARB é emitida no estrangeiro, o que evita que alguém o use de forma fraudulenta noutro país. Isto significa que mesmo que o passaporte roubado reapareça depois (devolvido por quem o encontrou, por exemplo), já não serve para viajar, e a única solução é a nova via.
Pontos-chave
O 1º passo é sempre o boletim de ocorrência (B.O.) na polícia local, feito antes de qualquer contacto com o consulado.
A ARB (Autorização de Retorno ao Brasil) costuma sair entre 24 e 72 horas em postos com atendimento presencial regular.
Ela vale para 1 trajeto só: voo direto, ou com escala técnica, até o Brasil, nunca como documento de entrada em terceiro país.
Perguntas frequentes
É um documento de viagem provisório emitido por consulados e embaixadas do Brasil para brasileiros que perderam ou tiveram o passaporte roubado no estrangeiro. Vale para 1 uso só: o trajeto direto de volta ao país. Não substitui o passaporte, não serve como identidade no destino e é recolhido pela Polícia Federal na chegada.
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