Só a febre amarela é legalmente exigida — 47 países pedem o CIVP, o Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia, com validade vitalícia e uma dose única. Tem de ser tomada 10 dias antes de embarcar, num Centro de Vacinação Internacional da DGS. Todas as outras (hepatite A e B, VASPR, febre tifoide, raiva) são recomendação, não exigência — e a malária é comprimido, não vacina.
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Há uma indústria inteira montada em cima do teu medo de adoecer numa viagem. Clínica privada que empurra sete vacinas para uma semana no Algarve turco. Site que cobra 40 € para "emitir" um documento que o serviço de saúde entrega no ato. Post de influenciador que confunde "recomendado" com "obrigatório" e faz-te gastar 300 € antes de um destino que não exigia nada.
Vamos separar o que é lei do que é conselho, o que pagas do que é gratuito, e o que muda no teu caso concreto por saíres de Portugal. Sem clichés de "descobre os segredos". São regras públicas, com números, prazos e onde confirmar a fonte oficial.
Primeiro, a verdade que resolve 80% da ansiedade: no mundo inteiro, existe uma única vacina que te pode barrar a entrada num país — a da febre amarela. Todas as outras são recomendação de saúde. Importantes, às vezes salvam a viagem (ou a vida), mas nenhum agente de fronteira te vai pedir o boletim da hepatite A.
A regra que joga a teu favor: Portugal não é área endémica
Antes de qualquer lista, percebe o mecanismo. As exigências de febre amarela vêm em dois sabores:
- O país exige de toda a gente (independentemente de onde vens).
- O país só exige de quem chega vindo de uma "área de risco de transmissão" — a maioria dos casos.
Aqui está o detalhe que quase nenhum guia genérico conta, e que trabalha a teu favor: Portugal não é considerado país com risco de transmissão de febre amarela. Ou seja, quando um país diz "exijo o certificado de quem vem de área endémica", não está a falar de ti — desde que saias de Portugal em voo directo.
Exemplo concreto de 2026: um viajante que sai do Brasil (país de risco) para o Quénia ou a Tanzânia precisa de certificado. Um português que voa directo de Lisboa para o mesmo Quénia, por lei, não precisa — porque não "vem de área de risco". A África do Sul e a Índia funcionam igual: exigem de quem chega de país endémico, e Portugal não está nessa lista.
Mas há uma armadilha honesta que muda tudo: a escala. Se o teu voo faz conexão longa (acima de 12 horas, e em muitos países qualquer paragem que te faça sair da zona de trânsito) num país de risco — pensa numa escala em Angola, no Brasil ou na Nigéria a caminho da Ásia —, passas a "vir de área de risco" para efeitos de fronteira. Nesse instante, a regra vira contra ti. Verifica sempre o itinerário completo, não só a origem e o destino.
Resultado prático: para a maioria das viagens que saem directas de Portugal, o "não exigido" que lês no site em inglês do destino é verdade para ti. Mas há uma diferença entre "não exigido" e "não recomendado" — e é aí que muita gente se engana no próximo capítulo.
Febre amarela para viajar: os 47 países que exigem o CIVP
Em 2026 são 47 países que exigem o Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia (CIVP) para a febre amarela: 34 em África e 13 nas Américas Central e do Sul. A OMS mantém a lista oficial e ela muda de tempos a tempos — confirma sempre antes de comprar bilhete.
África: Angola, Camarões, Gana, Quénia, Tanzânia, Uganda, Ruanda, República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Nigéria, Etiópia, Serra Leoa, Libéria, Togo, Benim, Burquina Faso, Mali, Níger, Guiné, Senegal (nalgumas rotas), República Centro-Africana, Gabão, Congo, Chade, entre outros. Muitos deles exigem de todos os viajantes, sem excepção — e aí a nacionalidade não interessa: sais de Portugal ou não, precisas do certificado.
Américas: Bolívia e Guiana Francesa (exigem de todos), além de uma série de países que exigem de quem chega de área endémica — Suriname, Guiana e várias ilhas das Caraíbas (Aruba, Baamas, Barbados, Curaçau, Jamaica, Santa Lúcia, Trindade e Tobago). Se sais directo de Portugal, na maioria destes não te é exigido; mas atenção, mais uma vez, às escalas no Brasil ou em outro país de risco.
Ásia e Oceânia: vários países asiáticos e a Austrália exigem o certificado de quem vem de área de risco. A lista costuma incluir Tailândia, Indonésia, Singapura, Filipinas, Índia, China, Vietname, Malásia e Austrália. Não é que "a Tailândia tem febre amarela" — não tem. É que não quer que importes a doença de um país que a tenha. Por isso, se fizeres escala num país endémico a caminho, podem pedir-te o comprovativo.
Onde NÃO é exigido nada: Europa inteira, Estados Unidos, Canadá, Japão, Coreia do Sul, Emirados Árabes — praticamente todo o circuito de fim de semana ou primeira viagem de avião do português. Se o teu 2026 é Paris, Marraquexe, Nova Iorque ou o Dubai, não precisas de febre amarela para entrar. Ponto.
A fonte definitiva, país por país, é a lista oficial da OMS e o CDC Yellow Book, cruzada com a orientação da DGS. Verifica com pelo menos 30 dias de antecedência, porque a regra de um país pode mudar entre a compra do bilhete e o embarque.
Como a febre amarela funciona: 10 dias antes, dose única, para a vida toda
Três números para gravar:
- 10 dias: o certificado só passa a valer 10 dias depois da toma. Tomas a vacina hoje, ela vale para viagens daqui a 10 dias. Deixar para a semana do embarque é tarde de mais.
- 1 dose: desde 2016, a OMS reconhece que uma dose única confere protecção vitalícia. Acabou aquela história do reforço de 10 em 10 anos para efeitos de viagem internacional. O CIVP com uma dose vale para sempre.
- Vida toda: o certificado de febre amarela tem validade vitalícia. Emitiste uma vez, está resolvido para todas as viagens futuras. Se já tens um CIVP válido, não precisas de tirar outro.
Contraindicações reais existem, e é aqui que a consulta médica importa a sério: a vacina é de vírus vivo atenuado. Não é indicada a bebés com menos de 9 meses, grávidas (avaliação caso a caso), pessoas imunodeprimidas, quem tem alergia grave ao ovo, e há cautela extra acima dos 60 anos (uma primeira dose na vida nessa faixa exige avaliação). Nesses casos, o médico pode emitir um atestado de isenção (também previsto no sistema internacional) — mas isso é decisão clínica, não conveniência.
O CIVP: o que é e como obtê-lo em Portugal
O CIVP — Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia — é o documento oficial, reconhecido internacionalmente, que prova a tua vacinação. É o clássico "boletim amarelo", hoje também em registo digital. Em Portugal, quem o emite são os Centros de Vacinação Internacional (CVI), sob tutela da DGS, e ele é entregue no próprio dia da toma, ali mesmo na consulta.
Regra de ouro anti-burla: nenhum site particular precisa de entrar nesta história. Se um site cobra "taxa de emissão" ou "tratamento urgente" do CIVP à parte da vacina, é cilada. O certificado sai do centro onde tomas a vacina. Guarda isto.
Como funciona, na prática:
1. Marca a consulta do viajante num Centro de Vacinação Internacional. Estão espalhados pelo país (SNS e alguns privados credenciados). Aí o médico avalia o destino, aplica a febre amarela se fizer sentido e entrega-te o CIVP preenchido e carimbado na hora.
2. Guarda o boletim amarelo em papel — e uma fotografia no telemóvel. Leva o papel na viagem: nem toda a fronteira lê um registo digital, e o carimbo físico do CVI é o que vale ao balcão. O registo também fica associado ao teu Boletim de Vacinas / área do utente no SNS 24.
3. Crianças precisam de CIVP a partir dos 9 meses de idade — se o destino for de risco e a toma for indicada.
Prazo realista de quem se planeia: consulta marcada com 4 a 6 semanas de antecedência, vacina tomada com pelo menos 10 dias de folga antes do voo, boletim amarelo carimbado no dia e uma cópia no telemóvel. Simples — desde que não deixes para a última semana.
Onde tomar: SNS x clínica privada, e o que é mesmo gratuito
Ao contrário do que muita gente assume, a febre amarela não é gratuita em Portugal como uma vacina de calendário. A distinção honesta é outra:
O calendário nacional (PNV) — gratuito. A VASPR (sarampo, papeira e rubéola), a hepatite B e o reforço do tétano/difteria (Td) fazem parte do Programa Nacional de Vacinação e são gratuitos no teu centro de saúde. Para a maioria dos viajantes, é aqui que actualizas o essencial sem gastar um cêntimo. Se o teu boletim está em dia, metade do trabalho já está feito.
A consulta do viajante e as vacinas específicas — pagas. A febre amarela, a febre tifoide, a raiva (esquema pré-exposição) e certas apresentações de hepatite A são dadas na consulta do viajante / CVI, e têm custo — consulta mais vacina. Trata estes números como ordem de grandeza a confirmar, porque variam entre SNS e privado e de ano para ano: a consulta do viajante costuma andar entre 25 € e 50 €; a febre amarela entre 15 € e 35 €; a hepatite A na faixa dos 30 € a 55 € por dose; a febre tifoide à volta de 25 € a 45 €; a raiva pré-exposição (3 doses) facilmente a passar dos 150 € o esquema. Confirma sempre antes.
A regra de bom senso: calendário básico, vai ao centro de saúde. Febre amarela e destino de risco real (safari em África, mochila pelo Sudeste Asiático rural, Amazónia profunda, voluntariado com animais ou em zona sem saneamento), aí a consulta do viajante paga-se sozinha — não pelas vacinas em si, mas pela avaliação do risco do teu destino específico, que é onde mora o valor.
Que vacinas para viagem internacional além da febre amarela
Nenhuma das abaixo é exigência de fronteira. São recomendações que fazem sentido conforme o destino e o tipo de viagem. A consulta do viajante existe para calibrar isto — o ideal é fazê-la 4 a 6 semanas antes do embarque, porque algumas vacinas pedem mais do que uma dose com intervalo.
Hepatite A — transmite-se por água e comida contaminada. É a recomendação mais universal para destinos de saneamento irregular: Sudeste Asiático, Norte de África, partes da América Latina, Índia. Se comes na rua em viagem (e devias), é a vacina que mais evita que a viagem acabe na casa de banho do hotel.
Hepatite B — transmite-se por sangue e contacto sexual. Já faz parte do PNV; a maioria dos nascidos nas últimas décadas está vacinada. Vale confirmar se o esquema está completo antes de viagens longas ou de trabalho na área da saúde.
VASPR (sarampo, papeira e rubéola) — a mais subestimada. Houve surtos de sarampo na Europa e nos EUA nos últimos anos. Não é doença de país pobre — é doença de gente não vacinada, e há-a em capital rica. Confirma se tens as duas doses. Está no calendário gratuito.
Tétano/difteria (Td) — reforço de 10 em 10 anos. Fácil de esquecer e relevante para qualquer viagem com actividade ao ar livre, trilho, contacto com terra ou animais. Gratuito no SNS.
Febre tifoide — para destinos de saneamento precário onde vais comer fora do circuito turístico: Índia, partes do Sudeste Asiático e de África. Não está no calendário; normalmente é da consulta do viajante.
Raiva (pré-exposição) — só faz sentido para perfil específico: viagem longa a zona rural remota, contacto com animais, ciclismo ou mochila em região com pouco acesso a hospital. Não é para o turista médio. São 2 a 3 doses e é cara — decisão de consulta, não de precaução genérica.
Malária não é vacina — é comprimido
Este é o erro mais comum e o mais perigoso: achar que existe "vacina da malária" para o viajante. Não existe. Sim, foram aprovadas vacinas contra a malária (RTS,S e R21) — mas são para crianças de países africanos endémicos, dentro de programas de saúde pública, e não são solução para o viajante. Se vais a uma área de risco, a tua protecção é quimioprofilaxia: comprimido.
Em Portugal, ao contrário do que acontece noutros países, há mais do que uma opção, escolhida na consulta do viajante conforme o destino e o teu perfil: atovaquona-proguanil (Malarone), mefloquina (Lariam) e doxiciclina. Todas exigem receita médica. Os esquemas mudam:
- Doxiciclina: 1 dia antes de entrar na área de risco, todos os dias durante a estadia, e por mais 4 semanas depois de voltar.
- Atovaquona-proguanil (Malarone): 1 a 2 dias antes, durante a estadia, e por mais 7 dias depois de voltar — a "cauda" mais curta, boa para viagens curtas.
Parar cedo de mais é o erro clássico — a doença pode manifestar-se depois do regresso.
Onde há risco de malária: a África subsariana, o sul e sudeste da Ásia, a Oceânia (Indonésia, Filipinas, Papua), a América Central e partes da América do Sul, incluindo a bacia amazónica. A escolha do fármaco — ou até a decisão de não fazer profilaxia e apostar em protecção física e diagnóstico rápido — depende da espécie de parasita que domina no destino. Na África, onde domina o P. falciparum (o que mata), a profilaxia é fortemente indicada.
Ou seja: malária é conversa de médico, caso a caso — mais repelente com DEET, roupa comprida ao entardecer e mosquiteiro. Nenhuma picada, nenhum problema.
Exigência x recomendação: a tabela mental que resolve
Guarda esta separação e não te enganas:
- Exigência (pode barrar-te na fronteira): só a febre amarela, e só nos países que pedem o CIVP. Fim da lista.
- Recomendação (protege-te, ninguém confere): hepatite A e B, VASPR, Td, febre tifoide, raiva. Importantíssimas — mas são saúde, não fronteira.
- Nem vacina: malária (é comprimido) e dengue/zika (a protecção é repelente; há vacina da dengue, mas com indicação restrita — fala com o médico).
A checklist de antecedência
- 8 semanas antes: decide o destino, verifica a exigência de febre amarela na OMS/CDC/DGS, marca a consulta do viajante se o itinerário for de risco.
- 4 a 6 semanas antes: toma as vacinas (algumas pedem intervalo entre doses). A febre amarela tem de entrar aqui, com a folga dos 10 dias.
- 1 a 2 semanas antes: confirma que tens o CIVP carimbado e uma cópia no telemóvel. Levanta a receita da profilaxia da malária, se for o caso.
- 1 semana antes: verifica se a regra do destino não mudou e se nenhuma escala te faz "vir de área de risco".
- Na mala: CIVP em papel, repelente com DEET e o boletim de vacinas como reserva.
Viajar bem começa antes do aeroporto. Não é tomar tudo por medo — é tomar o certo, no prazo certo, sem pagar por documento que sai no ato. O resto é repelente e bom senso.
Key points
A ÚNICA vacina que te pode barrar a entrada num país é a da febre amarela — 47 países pedem o CIVP. O resto é recomendação médica, não barreira de fronteira.
O CIVP tem validade vitalícia e uma dose única basta — regra da OMS desde 2016. É emitido no próprio Centro de Vacinação Internacional no dia da toma. Foge de qualquer site que cobre "taxa de emissão".
Toma a vacina no mínimo 10 dias antes de embarcar. Antes disso o certificado não é válido. Marca a consulta do viajante com 4 a 6 semanas de antecedência.
Frequently asked questions
Só uma é legalmente obrigatória para entrar num país: a da febre amarela, exigida por 47 países através do CIVP. Todas as outras (hepatite A e B, VASPR, febre tifoide, raiva) são recomendações de saúde — importantes, mas nenhuma fronteira as confere. Para a Europa, EUA, Canadá, Japão e Emirados, não é exigida vacina nenhuma.
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Curadoria Voyspark
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