Só a febre amarela é legalmente exigida — 47 países pedem o CIVP, o Certificado Internacional de Vacinação, que a ANVISA emite de graça e vale a vida toda com uma dose única. A vacina precisa ser tomada 10 dias antes de embarcar e sai grátis em qualquer UBS. Todas as outras (hepatite A e B, tríplice viral, febre tifoide, raiva) são recomendação, não exigência — e malária é remédio, não vacina.
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Existe uma indústria inteira montada em cima do seu medo de ficar doente numa viagem. Clínica privada que empurra sete vacinas para uma semana em Cancún. Site que cobra R$ 90 para "emitir" um documento que o governo dá de graça. Post de influenciador que confunde "recomendado" com "obrigatório" e faz você gastar R$ 1.200 antes de um roteiro que não exigia nada.
Vamos separar o que é lei do que é conselho, o que você paga do que é gratuito, e o que muda no seu caso específico por você ter passaporte brasileiro. Sem clichê de "descubra os segredos". São regras públicas, com números, prazos e onde conferir a fonte oficial.
Primeiro, a verdade que resolve 80% da ansiedade: no mundo inteiro, existe uma única vacina que pode barrar sua entrada num país — a de febre amarela. Todas as outras são recomendação de saúde. Importantes, às vezes salvam sua viagem (ou sua vida), mas nenhum agente de imigração vai te pedir carteirinha de hepatite A.
A regra que muda tudo pra você: o Brasil é área endêmica
Antes de qualquer lista, entenda o mecanismo. As exigências de febre amarela vêm em dois sabores:
- País exige de todo mundo (independente de onde você vem).
- País exige só de quem chega vindo de uma "área de risco de transmissão" — a maioria dos casos.
Aqui está o detalhe que quase nenhum guia genérico conta: o Brasil inteiro, para efeito internacional, é considerado país com risco de transmissão de febre amarela. Ou seja, quando um país diz "exijo o certificado de quem vem de área endêmica", ele está falando de você.
Exemplo concreto de 2026: um americano voando direto de Nova York para o Quênia ou a Tanzânia não precisa de certificado. Um brasileiro voando do Brasil para o mesmo Quênia, sim — porque você "vem de área de risco". A África do Sul e a Índia funcionam igual: exigem de quem chega de país endêmico, e o Brasil está na lista. É a mesma passagem, o mesmo destino, e regras diferentes só por causa do carimbo de saída.
Resultado prático: um brasileiro deve tratar a vacina de febre amarela como quase-obrigatória para qualquer viagem à África subsaariana, a boa parte da Ásia tropical e da América Latina — mesmo quando o site em inglês do destino diz "não exigido". O "não exigido" é para quem sai de país sem febre amarela. Não é o seu caso.
Febre amarela para viajar: os 47 países que exigem o CIVP
Segundo a ANVISA, em 2026 são 47 países que exigem o Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia (CIVP) para febre amarela: 34 na África e 13 nas Américas Central e do Sul. A OMS mantém a lista oficial e ela muda de tempos em tempos — sempre confirme antes de comprar passagem.
África (exigência frequente para o brasileiro): Angola, Camarões, Gana, Quênia, Tanzânia, Uganda, Ruanda, República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Nigéria, Etiópia, Serra Leoa, Libéria, Togo, Benin, Burkina Faso, Mali, Níger, Guiné, Senegal (para algumas rotas), República Centro-Africana, Gabão, Congo, Chade, entre outros. Muitos deles exigem de todos os viajantes, sem exceção.
Américas: Bolívia, Guiana Francesa (exige de todos), e uma série de países que exigem de quem chega de área endêmica — o que inclui o brasileiro — como Suriname, Guiana, e várias ilhas do Caribe (Aruba, Bahamas, Barbados, Curaçao, Jamaica, Santa Lúcia, Trinidad e Tobago). Atenção: países vizinhos como Bolívia, Colômbia, Equador e Paraguai fazem conferência rigorosa em fronteira terrestre e aeroporto.
Ásia e Oceania: vários países asiáticos e a Austrália exigem o certificado de quem vem de área de risco — de novo, você. A lista costuma incluir Tailândia, Indonésia, Cingapura, Filipinas, Índia, China, Vietnã, Malásia e Austrália. Não é que "a Tailândia tem febre amarela" — ela não tem. É que ela não quer que você importe a doença de um país que tem. Por isso pede seu comprovante.
Onde NÃO é exigido nada: Europa inteira (Portugal, Espanha, França, Itália, Reino Unido, Alemanha etc.), Estados Unidos, Canadá, Japão, Coreia do Sul, Emirados Árabes, a maioria do circuito "primeira viagem internacional" do brasileiro. Se seu 2026 é Lisboa, Paris, Orlando ou Dubai, você não precisa de febre amarela para entrar. Ponto.
A fonte definitiva, país por país, é a lista simplificada da ANVISA (gov.br/anvisa) e o portal da OMS. Cheque com no mínimo 30 dias de antecedência, porque a regra de um país pode mudar entre a compra da passagem e o embarque.
Como a febre amarela funciona: 10 dias antes, dose única, para a vida toda
Três números para gravar:
- 10 dias: o certificado só passa a valer 10 dias depois da aplicação. Tomou a vacina hoje, ela vale para viagens a partir de daqui a 10 dias. Isso significa que deixar para a semana do embarque é tarde demais.
- 1 dose: desde 2016, a OMS reconhece que uma dose única confere proteção vitalícia. Acabou aquela história de reforço a cada 10 anos para efeito de viagem internacional. O CIVP com uma dose é válido para sempre.
- Vida toda: o certificado de febre amarela tem validade vitalícia. Emitiu uma vez, está resolvido para todas as suas viagens futuras. Se você já tem um CIVP válido, não precisa tirar outro.
Contraindicações reais existem e é aqui que a consulta médica importa de verdade: a vacina é de vírus vivo atenuado. Não é indicada para bebês com menos de 9 meses, gestantes (avaliação caso a caso), pessoas imunossuprimidas, quem tem alergia grave a ovo, e há cautela extra acima dos 60 anos (primeira dose na vida nessa faixa pede avaliação). Nesses casos, o médico pode emitir um atestado de isenção (também previsto no sistema internacional) — mas isso é decisão clínica, não conveniência.
O CIVP: o que é, como emitir de graça pela ANVISA
O CIVP — Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia — é o documento oficial, reconhecido internacionalmente, que prova sua vacinação. É aquele "cartão amarelo" da tradição, hoje digital. No Brasil, quem emite é a ANVISA, e é 100% gratuito.
Regra de ouro anti-golpe: nenhum site particular precisa entrar nessa história. Se um site cobra "taxa de emissão" ou "agilização" do CIVP, é cilada. A emissão oficial acontece só em canais do governo. Guarde isso.
Você tem três caminhos:
1. App Meu SUS Digital (o mais rápido). Se você tomou a vacina a partir de 30/12/2022 numa sala de vacina conectada à Rede Nacional de Dados de Saúde, o registro sobe automático e o CIVP fica disponível no app quase na hora. Baixe o Meu SUS Digital, faça login com sua conta gov.br, procure o certificado de febre amarela. Se estiver lá, você baixa o PDF e pronto.
2. Portal gov.br (para vacinas antigas ou que não caíram no sistema). Procure o serviço "Tirar o Certificado Internacional de Vacinação". Você vai precisar do CPF e da foto/scan do comprovante nacional de vacinação (com seus dados e os dados da dose). Feita a solicitação, se for deferida, o certificado aparece em "Minhas solicitações" — o prazo oficial é de até 10 dias úteis. Ou seja, mais um motivo para não deixar para a última hora.
3. Presencial nos Centros de Orientação para a Saúde do Viajante da ANVISA, localizados em portos, aeroportos e áreas de fronteira. Útil se você travou no digital ou precisa de orientação específica. Também gratuito.
Prazo realista de brasileiro que se planeja: vacina tomada com 30 dias de antecedência, CIVP emitido pelo app ou pelo portal na semana seguinte, documento salvo no celular e impresso (leve o papel — nem toda fronteira lê QR Code no seu telefone). Crianças precisam de CIVP a partir dos 9 meses de idade.
Onde tomar: UBS de graça x clínica do viajante paga
Você tem dois mundos, e a escolha entre eles é honesta:
UBS / posto de saúde (SUS) — gratuito. A vacina de febre amarela está disponível de graça, o ano inteiro, em qualquer Unidade Básica de Saúde do Brasil. É a mesma vacina, do mesmo fabricante (Bio-Manguinhos/Fiocruz), que a clínica privada aplica. Não existe versão "melhor" na rede paga. Tríplice viral, hepatite B, dupla adulto (dT, contra tétano e difteria) e outras do calendário nacional também são gratuitas na UBS. Para 90% dos viajantes, a UBS resolve febre amarela e a atualização do calendário básico sem gastar um centavo.
Clínica do viajante (privada) — paga, mas com valor real em alguns casos. O que você paga numa clínica de medicina do viajante não é a vacina de febre amarela — é a consulta especializada e o acesso a imunizantes que o SUS não oferece de rotina para viajante, como a febre tifoide, a raiva (esquema pré-exposição) e certas apresentações de hepatite A. Faixas de preço em 2026 variam bastante por cidade e clínica, então trate estes números como ordem de grandeza a confirmar: consulta do viajante costuma sair de R$ 200 a R$ 500; hepatite A na faixa de R$ 250 a R$ 400 por dose; febre tifoide em torno de R$ 200 a R$ 350; raiva pré-exposição (3 doses) facilmente passando de R$ 600 o esquema. Confirme sempre com a clínica antes — preço de vacina privada muda mês a mês.
A regra de bom senso: febre amarela e calendário básico, vá de UBS. Roteiro de risco real (safári na África, mochilão pelo sudeste asiático rural, Amazônia profunda, trabalho voluntário com animais ou em zona sem saneamento), aí a consulta do viajante paga se justifica — não pelas vacinas em si, mas pela avaliação do risco do seu destino específico, que é onde mora o valor.
Quais vacinas para viagem internacional além da febre amarela
Nenhuma das abaixo é exigência de fronteira. São recomendações que fazem sentido conforme o destino e o tipo de viagem. A consulta do viajante existe para calibrar isso — o ideal é fazê-la de 4 a 6 semanas antes do embarque, porque algumas vacinas pedem mais de uma dose com intervalo.
Hepatite A — transmite por água e comida contaminada. É a recomendação mais universal para destinos de saneamento irregular: sudeste asiático, norte da África, partes da América Latina, Índia. Se você come na rua viajando (e você deveria), é a vacina que mais protege sua viagem de acabar num banheiro de hotel.
Hepatite B — transmite por sangue e contato sexual. Já faz parte do calendário brasileiro; a maioria dos nascidos das últimas décadas já é vacinada. Vale conferir se seu esquema está completo antes de viagens longas ou de trabalho na área de saúde.
Tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) — a mais subestimada. Houve surtos de sarampo na Europa e nos EUA nos últimos anos. Não é doença de país pobre — é doença de gente não vacinada, e tem em capital rica. Confira se você tomou as duas doses. É gratuita na UBS.
Dupla adulto — dT (tétano e difteria) — reforço a cada 10 anos. Fácil de esquecer e relevante para qualquer viagem com atividade ao ar livre, trilha, contato com terra ou animais. Gratuita na UBS.
Febre tifoide — para destinos de saneamento precário onde você vai comer fora do circuito turístico: Índia, partes do sudeste asiático e da África. Não está na rotina do SUS; normalmente é da clínica privada.
Raiva (pré-exposição) — só faz sentido para perfil específico: viagem longa a área rural remota, contato com animais, ciclismo/mochilão em região com pouco acesso a hospital. Não é para o turista médio. São 2 a 3 doses e custa caro — decisão de consulta, não de precaução genérica.
Malária não é vacina — é remédio
Este é o erro mais comum e o mais perigoso: achar que existe "vacina de malária" para o viajante. Não existe. Sim, foram aprovadas vacinas contra malária (RTS,S e R21) — mas elas são para crianças de países africanos endêmicos, dentro de programas de saúde pública, e não são solução para viajante. Se você vai a uma área de risco, sua proteção é quimioprofilaxia: comprimido.
No Brasil, em 2026, só existe um medicamento disponível para profilaxia: a doxiciclina. O esquema é rígido: 1 dia antes de entrar na área de risco, todos os dias durante a estadia, e por mais 4 semanas depois de voltar. Parar cedo demais é o erro clássico — a doença pode se manifestar depois do retorno.
Onde há risco de malária: a região amazônica (9 estados: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), a África subsaariana, a América Central, o sul e sudeste da Ásia e a Oceania (Indonésia, Filipinas, Papua). Uma nuance honesta: no Brasil, onde predomina o P. vivax, a eficácia da profilaxia é baixa e ela não é recomendada de rotina para a Amazônia — a estratégia aqui é repelente, proteção física e diagnóstico rápido. Já na África, onde domina o P. falciparum (o que mata), a profilaxia é fortemente indicada.
Ou seja: malária é conversa de médico, caso a caso, com a doxiciclina como a ferramenta disponível — mais repelente com DEET, roupa comprida ao entardecer e mosquiteiro. Nenhuma picada, nenhum problema.
Exigência x recomendação: a tabela mental que resolve
Guarde esta separação e você não erra:
- Exigência (pode te barrar na fronteira): só febre amarela, e só nos países que pedem o CIVP. Fim da lista.
- Recomendação (protege você, ninguém confere): hepatite A e B, tríplice viral, dT, febre tifoide, raiva. Importantíssimas — mas são saúde, não imigração.
- Nem vacina: malária (é remédio) e dengue/zika (proteção é repelente; a vacina da dengue existe mas tem indicação restrita, converse com o médico).
O checklist de antecedência
- 8 semanas antes: decida o destino, cheque a exigência de febre amarela na ANVISA/OMS, marque a consulta do viajante se o roteiro for de risco.
- 4 a 6 semanas antes: tome as vacinas (algumas pedem intervalo entre doses). Febre amarela precisa entrar aqui pelo prazo dos 10 dias com folga.
- 2 a 3 semanas antes: emita o CIVP pelo Meu SUS Digital ou gov.br (lembre do prazo de até 10 dias úteis no portal).
- 1 semana antes: salve o CIVP no celular e imprima. Pegue a receita da profilaxia de malária se for o caso. Confirme se a regra do destino não mudou.
- Na mala: CIVP impresso, repelente com DEET, e o comprovante nacional de vacinação de reserva.
Viajar bem começa antes do aeroporto. Não é sobre tomar tudo por medo — é sobre tomar o certo, no prazo certo, sem pagar por documento gratuito. O resto é repelente e bom senso.
Key points
A ÚNICA vacina legalmente exigida para entrar em algum país é a de febre amarela — 47 países pedem o CIVP. O resto é recomendação médica, não barreira de fronteira.
O CIVP é gratuito, emitido pela ANVISA (pelo Meu SUS Digital ou gov.br), vale a vida inteira e uma dose única basta — regra da OMS desde 2016. Fuja de qualquer site que cobra taxa.
Tome a vacina no mínimo 10 dias antes de embarcar. Antes disso o certificado não é válido. Planeje a consulta do viajante com 4 a 6 semanas de antecedência.
Frequently asked questions
Só uma é legalmente obrigatória para entrar em algum país: a de febre amarela, exigida por 47 países via CIVP. Todas as outras (hepatite A e B, tríplice viral, febre tifoide, raiva) são recomendações de saúde — importantes, mas nenhuma fronteira as confere. Para Europa, EUA, Canadá, Japão e Emirados, não é exigida vacina nenhuma.
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